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sexta-feira, 2 de agosto de 2019

Ex Pastor da IASD Conta Tudo! Depoimento - Juventude dos 19 aos 23 Anos de Vida - Teologando no SALT/IAE, São Paulo, SP.

Aos 19 anos de idade eu estava cursando o primeiro ano da faculdade adventista de teologia no SALT/IAE, São Paulo, SP, atualmente UNASP. Eu era relativamente novo na fé, havia me tornado adventista do sétimo dia aos 16 anos e trabalhado como colportor estudante nos períodos de férias. Lembro de quando cheguei na cidade de São Paulo, SP. Fui acompanhado pelo amigo e grande líder da colportagem Tércio Reginaldo Teixeira Marques, o qual me acolheu e me orientou até chegar no colégio IAE, em Itapecerica da Serra, zona sul da capital paulista.

O ano de 1986 foi meu primeiro ano de estudos no curso de Bacharel em Teologia Línguas Bíblicas (Grego e Hebraico) pelo Seminário Latino Americano de Teologia. Logo no início da faculdade percebi que ela não seria nada fácil. Tive excelentes professores no curso teológico, dentre eles alguns se destacaram como referência para mim devido ao seu alto nível de conhecimento e exemplo moral, foram eles: Wilson Harle Endruweit; Alberto Ronald Timm; Alcides Campolongo; Antonio Alberto Nepomuceno; David José Bravo Torres; Emilson dos Reis; Gerson Pires de Araújo; Horne Pereira Silva; José Maria Barbosa da Silva; José Maria Bertolucci; Orlando Ruben Ritter; Pedro Apolinário; Rubem Aguiar Santos; Siegfried Júlio Schwantes; Valdir Negreli; Wilson Luis Paroschi. Agora eu era oficialmente um teologando, tinha até uma carteirinha do SALT/IAE:



Os professores exigiam de nós teologandos muito estudo e leituras, tínhamos que fazer semanalmente para cada disciplina um relatório de leitura da quantidade estipulada de páginas que deviam ser lidas das referências bibliográficas dadas pelos nossos mestres, doutores e pós doutores em teologia. Geralmente o mínimo de páginas semanais por disciplina era de duzentas. Além disso, haviam as monografias e as provas que eram todas sem consulta. Lembro de uma das primeiras provas que fiz para a disciplina de História da Igreja com o professor Alberto Ronald Timm, eu havia estudado mais de 20 horas para aquela prova, o conteúdo era o livro "História do Adventismo", o livro todo. Praticamente decorei os principais fatos, datas e nomes do livro, e o resultado foi um "A", que mereceu menção por parte do professor Timm em sala de aula. Ele costumava devolver as provas corrigidas das menores notas para as maiores, lembro das suas palavras até hoje quando disse" "Puxa, eu tenho aqui uma prova que parece que o aluno copiou o gabarito", e em seguida mencionou meu nome e me entregou a prova. Assim foi minha dedicação no curso de teologia, eu amava estudar a Palavra de Deus e me preparar para o sagrado exercício do ministério evangélico na IASD.

Lembro que no final do primeiro semestre fiquei muito doente no IAE. Eu havia levado pouca roupa de cama e fez uma semana de muito frio e chuvas, eu tinha apenas um cobertor para me cobrir. Foi a única vez que fiquei doente durante os quatro anos que estudei no Internato do IAE. Tenho uma dívida de gratidão a duas pessoas que me ajudaram naquela situação, a duas pessoas verdadeiramente cristãs e que me demonstraram cuidados de pai e mãe enquanto eu estava enfermo. O professor Domício de Oliveira e sua esposa, além de me doarem um cobertor a mais, me deram medicação e cuidaram de mim como um filho. A este casal de filhos de Deus meu eterno muito obrigado!

O primeiro semestre de 1986 passou rápido e passei com honra em todas as disciplinas. Quando as férias de julho chegaram também chegou um novo desafio por meio da colportagem estudantil. Claro que saí para trabalhar naquelas férias, pois eu dependia das vendas da colportagem para pagar o próximo semestre no internato e a faculdade. Embora eu tivesse me precavido com uma generosa caderneta de poupança desde minha primeira experiência na colportagem em 1983, eu precisa garantir os meus estudos e o meu preparo para o pastorado pois no início de 1986 o Governo Brasileiro havia lançado um plano econômico chamado de Plano Cruzado, o qual visava estabilizar a economia e trouxe uma nova moeda, o Cruzado, em substituição ao Cruzeiro. Esse plano econômico congelou salários, preços, produtos, serviços e no lugar da correção monetária criou o Índice de Preços ao Consumidor (IPC) para corrigir a poupança e aplicações financeiras. Isso afetou diretamente as minhas economias e meus rendimentos na poupança. O dinheiro que eu tinha guardado durante tantos anos praticamente desapareceu em um ano. O plano Sarney como ficou conhecido foi um fracasso e prejudicou muitos poupadores. Por essa razão, eu dependia totalmente de ter sucesso na colportagem das férias de julho, e o colégio dava para os alunos um recesso de dois meses praticamente, para que os colportores estudantes pudessem garantir o seu retorno no próximo semestre. Confesso que eu sempre ficava com um certo receio de não conseguir o valor necessário para pagar minha estadia no internato, a faculdade e minhas despesas pessoais, mas após muita oração e leitura do livro "O Colportor Evangelista", de Ellen G. White, minha fé e confiança no Senhor Jesus eram renovadas eu eu declarava: "Deus Proverá!"

Para acessar o livro "O Colportor Evangelista":
EGW Writings - https://m.egwwritings.org/pt/book/1954.2

Nas férias do meio do ano, em Julho de 1986, decidi que não iria trabalhar em equipe, mas colportar em dupla na cidade de Brusque, SC. Meu colega de trabalho foi o teologando Claudio Augusto Adão, atualmente pastor e missionário em Moçambique na África e meu grande amigo até hoje. Eu havia terminado o primeiro semestre do teológico e precisa conseguir o estipêndio para o próximo semestre. Ficamos numa sala nos fundos da igreja central de Brusque, SC, e como era inverno as irmãs foram bem generosas e nos emprestaram cobertas e cobertores, pois a gente dormia num colchonete no chão gelado. Fizemos ótimas amizades naquela igreja, e sempre haverá uma dívida de gratidão. Com muito trabalho, oração e confiança em Deus Ele me abençoou grandemente naquelas férias, mais uma vez Deus proveu o necessário e consegui o estipêndio para o segundo semestre do primeiro ano da faculdade de teologia do SALT/IAE.

Ao retornar para o IAE em meados de agosto de 1986 eu estava agradecido a Deus, pois pude pagar o colégio interno e a faculdade à vista com 10% de desconto naquele semestre novamente como aluno regular, ou seja, isso significava que meu tempo estava totalmente livre para estudar, para as atividades na igreja e para lazer. O que mais me marcou academicamente naquele ano de 1986 foram as aulas de grego com o professor Pedro Apolinário. E o que mais me marcou no aspecto emocional e social foi o fato de no mês de outubro eu ter conhecido uma jovem que seria um anjo para mim durante todo o curso de teologia. Ela se chamava Vaurene Ribeiro de Carvalho, e foi minha única namorada enquanto estudei no IAE, mais do que isso, ela foi minha amiga e em muitas situações me socorreu digitando trabalhos acadêmicos e cuidando de mim e do meu bem estar. Registro aqui minha dívida de gratidão aquela jovem cristã, sempre sorridente, meiga, delicada, amorosa, atenciosa e carinhosa.

Logo o mês de dezembro chegou e com ele mais um fim de semestre. Novamente, graças a Deus e ao meu empenho e esforço fui aprovado com honra nas disciplinas do curso teológico, o primeiro ano tinha sido concluído, faltavam mais três anos. Agora estava diante de mim mais um desafio na colportagem estudantil de férias. Desta vez fui colportar com uma equipe em Blumenau, SC, e o líder da equipe se tornou um grande amigo até os dias de hoje, seu nome: Volnei Kuhl, meu colega no curso teológico. Naquelas férias nós tínhamos praticamente três meses para conseguir a bolsa de estudos, dezembro de 1986, janeiro e fevereiro de 1987, sendo que a bolsa de estudos equivalia a uma mensalidade da faculdade de teologia, ou seja, era um bônus sobre o volume total de vendas se atingíssemos a meta individual, mais nosso lucro líquido com as vendas que era de 40%, era assim que conseguíamos o estipêndio para mais um semestre. Tudo isso com o apoio da igreja por meio da Casa Publicadora Brasileira (CPB), Associação Catarinense da IASD e igreja local.

Lembro que ficamos hospedados nas salas de aula da Escola Básica Adventista Castelo Forte, na cidade de Blumenau, SC. Como sempre dormíamos em colchonetes estendidos no chão, e cada um se virava na questão da alimentação. Nunca passei fome nesse trabalho abençoado da colportagem, e Deus sempre foi fiel em suprir minhas necessidades à medida que eu me empenhava no trabalho. Aquele verão estava particularmente quente, de maneira que saíamos para trabalhar no meio da tarde. Optei por colportar numa cidade próxima de Blumenau, a cidade de Timbó, SC. Eu e meu amigo Jair Tadeu Machado, que hoje é pastor da IASD, trabalhávamos de segunda feira a sexta feira em Timbó, hospedados no Hotel Cometa, e na sexta feira à tarde pegávamos ônibus de volta para Blumenau para ficarmos junto com a equipe de colegas colportores estudantes. Foi uma experiência marcante pra mim, porque além de depender das vendas para pagar o próximo semestre no SALT/IAE, eu comecei a estudar a apostila de grego III do professor Pedro Apolinário e acabei decorando o alfabeto grego, algumas desinências verbais e a oração do Pai Nosso em grego, a qual sei até os dias de hoje.

Jorge N. N. Schemes (em pé a esquerda), dois colportores estudantes ao centro, que não lembro o nome; Volnei Kuhl (sentado a direita, líder da equipe de colportores nas férias de verão de dezembro de 1986 a fevereiro de 1987). Caixas contendo livros da CPB vendidos pela equipe de colportores estudantes para entrega em Blumenau e Timbó, SC.

Deus sempre me abençoou muito na colportagem evangelística de férias. E naquelas férias não foi diferente. Meu lema era uma frase que está escrita no livro O Colportor Evangelista: "O segredo do êxito está na união do poder divino com o esforço humano". Por essa razão eu tinha uma meta de ofertas por meio do meu prospecto de vendas, era de 15 ofertas bem dadas desde a apresentação inicial até o fechamento que era a assinatura do cliente confirmando seu pedido. E antes de cada oferta eu fazia uma oração e lia um texto bíblico ou uma citação do Colportor Evangelista, ou seja, eu fazia minha parte e o Espírito Santo de Deus fazia a dEle. O resultado era que eu vendia alguma coisa em 12 ou 13 daquelas 15 ofertas. Eu confiava plenamente que estava fazendo a obra de Deus e que a colportagem fazia parte do meu preparo para o sagrado ministério. No final daquelas férias, após o período de entrega dos livros e do acerto final na Associação Catarinense, eu havia mais uma vez conseguido o estipêndio para continuar meus estudos como aluno regular no SALT/IAE.


Escrevo estas coisas para exaltar o nome de Jesus, pois foi graças a Ele que eu obtive sucesso como colportor estudante, sendo eu mesmo fruto da obra da colportagem. O Espírito de Profecia declara no livro O Colportor Evangelista: "Só podemos iluminar as pessoas mediante o poder de Deus. Os colportores precisam conservar sua própria alma em viva comunhão com Deus. Eles devem trabalhar orando para que Deus abra o caminho e prepare os corações para que recebam a mensagem que Ele lhes envia. Não é a habilidade do agente ou obreiro, mas o Espírito de Deus movendo o coração que dá verdadeiro sucesso".

Esse pensamento reflete a mais pura verdade sobre "a obra daquele outro anjo" como também é chamada a colportagem evangelística. Quantas vezes fui oferecer os livros da CPB e após dar a oferta, sem perceber nenhum interesse por parte da pessoa diante de mim, ao final ela fazia o pedido e comprava os mesmos?! Quantas vezes as pessoas já compravam mesmo antes de eu fazer o fechamento?! Teve uma vez que uma mulher interrompeu minha oferta, olhou para o prospecto do livro "Vida de Jesus" e me disse assustada: "Antes de você bater na minha porta eu estava dormindo aqui no sofá da sala, e eu estava sonhando com este livro!" "Eu quero este livro!" Por essa e muitas outras razões é que até hoje eu me empolgo e acredito na obra da colportagem.

Ao retornar para o colégio paguei mais um semestre a vista com o dinheiro que havia ganhado com a colportagem estudantil. Por mais um semestre eu estava tranquilo para me dedicar aos estudos de teologia, o que praticamente exigia um tempo integral devido as muitas leituras, trabalhos, monografias e avaliações. O primeiro semestre de 1987 foi bem produtivo, e eu contava com o apoio de um braço direito para datilografar/digitar meus trabalhos e "cuidar de mim", minha namorada na época, a jovem estudante da FAED (Faculdade Adventista de Educação), Vaurene Ribeiro de Carvalho, a qual foi parceira e amiga até o final da minha faculdade. Lembrando que que os trabalhos da faculdade deveriam ser todos entregues datilografados e que a máquina de escrever ainda era bem usada, a mais sofisticada que tinha era uma máquina elétrica da IBM, ainda não haviam os computadores, celulares e Internet e eu não sabia datilografar.

Nas férias de Julho de 1987 fui colportar em Santo Ângelo, RS. O frio foi muito intenso naquela cidade. Nossa equipe de jovens estudantes colportores ficou alojada numa sala nos fundos da igreja Adventista do Sétimo Dia central, e as irmãs "Dorcas" nos socorreram emprestando cobertas bem quentinhas. Aquelas férias foi muito difícil pra mim e para nossa equipe, porque só podíamos sair para trabalhar depois das 10 horas da manhã devido a geada e o frio intenso. Como os dias eram mais curtos, finalizávamos nosso trabalho por volta das 17:30 horas, pois além de já estar escuro a temperatura caia bastante. Mas graças a Deus, ao final das férias eu havia conseguido novamente o estipêndio para mais um semestre da faculdade do SALT e para pagar o Internato do IAE como aluno regular.

Eu já estava no segundo semestre do segundo ano de teologia, e as exigências da faculdade eram muitas, o que me consumia boa parte do tempo na biblioteca do colégio. Naquela época as pesquisas não eram feitas por meio do Google, ele ainda não existia, não havia Internet e nem computadores de uso pessoal ou celulares, era outro mundo, e no que diz aos estudos também. Para fazer uma pesquisa significativa sobre algum tema tínhamos que ir até a biblioteca no contra turno das aulas, selecionar as referências bibliográficas de autores mais relevantes, o que dava aproximadamente de 20 a 30 livros, os quais deixávamos empilhados ao nosso lado na mesa de estudos. Na medida que líamos íamos anotando em uma ficha as citações sobre o assunto, e após muita leitura, o que podia demorar a tarde toda e até vários dias, anotávamos muitas citações com a devida referência bibliográfica, para posteriormente utilizarmos no processo de escrita do trabalho ou monografia. Foi assim que aprendi a gostar da leitura e dos estudos, bons tempos!

Logo chegou o final do ano e com ele novos desafios na colportagem de férias. Em dezembro de 1987 viajei para a cidade de São miguel do Oeste, SC, pra trabalhar na equipe de colportores estudantes nos meses seguintes até final de fevereiro de 1988, liderada pelo amigo e jovem colega de faculdade Volnei Kuhl. Naquele verão, São miguel do Oeste estava particularmente quente, fazia muio calor, e me recordo de um final de semana, no dia de domingo, que nossa equipe comeu uma grande "melanciada", patrocinada pelo nosso líder de colportagem Volnei Kuhl. Naquelas férias tive dificuldades para conseguir o estipêndio para o semestre da faculdade, de maneira que não vendi o suficiente para pagar o Internato e o curso teológico. Ficou faltando aproximadamente 30% do valor total necessário. 

Quando retornei para o IAE em São Paulo, SP, eu fui pela fé, crendo que de alguma maneira Deus iria prover o que faltava. Era o mês de março de 1988 e as aulas do primeiro semestre do terceiro ano de teologia já haviam começado. Fui até a tesouraria do colégio para explicar minha situação. Eu sempre havia ido lá no início de cada semestre para pagar os meus estudos à vista, mas desta vez eu não tinha condições. O tesoureiro me deu um prazo de uma semana para regularizar minha situação, de maneira que para eu ficar no Internato eu havia recebido um cartão provisório para permanecer no dormitório, me alimentar no refeitório e frequentar as aulas na faculdade de teologia. Aquela semana foi angustiante pra mim. Uma noite eu fui até um jardim que havia na frente do prédio do dormitório masculino, olhei para o céu e fiz a seguinte oração: "Pai de amor, eu fiz a minha parte mas não consegui o suficiente para pagar este semestre, se é da tua vontade que eu continue meus estudos sem interrupção, se é teu plano que eu seja um pastor, eu te peço para prover o que falta, de alguma maneira Senhor, que a tua vontade seja feita, em nome de Jesus amém!" Lembro que após esta oração eu fiquei em paz.

A resposta veio de duas maneiras. Na semana seguinte, soube que havia uma ordem de pagamento em meu nome na agência da Caixa Econômica Federal que ficava dentro do colégio. O valor era exatamente o que eu estava precisando, 30% do valor total do semestre. Era um depósito feito em Lages, SC, por minha avó, Osvaldina Emy da Silva Muniz. Eu não sabia exatamente como ela havia conseguido o dinheiro, que não era pouco. Anos mais tarde fiquei sabendo que minha avó e minha mãe haviam conseguido aquele dinheiro por meio de um empréstimo feito com o irmão Sebastião Souza, meu pai na fé. Minha avó  e minha mãe, costumavam mandar algum dinheiro de vez em quando para mim, mas era apenas para cobrir despesas pessoais, não era muito, mas me ajudava bastante. Até hoje tenho as cartas que recebia delas no colégio, sempre oraram muito por mim e fizeram o que puderam para me ajudar de alguma forma. A estas duas mulheres de fé minha eterna gratidão.

Outra resposta veio após eu ter pagado o semestre com o dinheiro que ganhei na colportagem e mais o dinheiro que minha avó e mãe me mandaram. Cerca de uma semana depois, recebi um telefonema interno da tesouraria do colégio para o dormitório masculino. Quando atendi, me disseram para passar na tesouraria, pois havia chegado uma bolsa de estudos da empresa Golden Cross no valor de 30% do custo total do semestre como aluno interno regular da faculdade de teologia do SALT/IAE. Eu mal podia acreditar. fui correndo até a tesouraria do colégio. Quando cheguei lá o tesoureiro me confirmou o valor da bolsa de estudos, mas me disse que eu não tinha direito em receber a bolsa naquele semestre. Lhe questionei o porquê eu não tinha direito. Ele me disse que como eu já tinha pagado o colégio à vista, eu não tinha direto ao desconto, e que o desconto total de 30% estava garantido para mim até o final da faculdade de teologia. Fiquei triste e inconformado, pois apesar de ter pagado o valor total do semestre eu precisava de dinheiro para minhas despesas pessoais, para comprar livros e tirar cópias de textos referenciados pelos professores. Então lhe perguntei o seguinte: "Senhor Passini,  se o irmão acha que o que está fazendo é justo, então faça!" Diante do que eu disse, o tesoureiro ficou irritado e pegou logo uma calculadora mecânica, digitou várias números e fez uma conta que só ele entendeu. Em seguida me disse para passar na tesouraria e pegar um determinado valor que ele havia posto como resultado final de sua conta. Peguei o papel da mão dele e saí em silêncio em direção ao caixa da tesouraria, o qual me deu o equivalente a 10% dos 30% que eu tinha direito. Desde o fato ocorrido coloquei esta questão nas mãos de Deus confiando em sua justiça. 

O primeiro semestre de 1988 passou rápido e cumpri com todas as minhas obrigações de estudante teologando, com a benção de Deus obtive êxito acadêmico em mais uma etapa do curso de Bacharel em Teologia Línguas Bíblicas. Lembro que em cada semestre haviam as semanas de oração como parte do calendário escolar da Instituição, e todas elas foram uma benção muito grande. As férias de julho chegaram e com elas mais um desafio de conseguir o estipêndio para continuar meus estudos. Eu estava agradecido a Deus por ter me abençoado com uma bolsa de estudos de 30% vinda da Golden Cross para me ajudar a pagar a faculdade. Apesar de eu não ter recebido o que me era devido no primeiro semestre, eu tinha a promessa do tesoureiro do IAE e a esperança de receber o auxílio no segundo semestre e até o final do curso. Mas eu tinha que colportar para obter os 70% que faltavam.  desta maneira fui colportar com uma equipe de estudantes na cidade de Florianópolis, SC. Mais uma vez Deus proveu o necessário e consegui o dinheiro suficiente para pagar o semestre à vista no IAE/SALT com o desconto tradicional de 10% e mais a bolsa de 30% da Golden Cross.

O segundo semestre de 1988 também passou voando, eu estava feliz por estar concluindo o terceiro ano de teologia. Já não éramos chamados de profetas menores, mas carinhosamente de profetas maiores, termo usado para distinguir entre teologandos primeiro anistas e quem já estava na reta final do curso. Muitas disciplinas e respectivos professores me marcaram na faculdade, mas gostaria de fazer menção às aulas de História da Igreja Cristã, Arquelogia Bíblica, Grego, Hebraico e Teologia Sistemática, pois foram as que mais gostei. Também lembro dos estágios que tínhamos que fazer nas igrejas. A igreja onde fiz meu estágio pela Missão Iaense foi a do Jardim Pirajussara. Também lembro muito bem das campanhas da Recolta e das atividades promovidas pelo SALT como cursos, seminários, palestras e viagens, como a que ocorreu à Casa Publicadora Brasileira (CPB). Como teologandos tivemos a experiência da direção de classes da escola sabatina e da ordenação ao diaconato na igreja do IAE, sob a coordenação do professor Alberto Ronald Timm. 

Ao concluir o terceiro ano do teológico, mais um desafio estava diante de mim, o de garantir que eu teria o dinheiro suficiente para estudar o último ano do curso. De fato, todo o dinheiro que eu ganhava na colportagem e o pouco que minha mãe e avó às vezes mandavam para minhas despesas pessoais era bem utilizado.  Registro aqui o fato de que o dinheiro que minha avó Osvaldina Emy da Silva Muniz me mandava de vez em quando era o que ela ganhava com a venda de chinelos de pano que ela mesmo fazia com suas mãos numa velha máquina de costura. Eu sabia dar valor e quase não comprava roupas nem sapatos, eu mesmo costurava minhas roupas quando precisava, pois minha mãe Miriam Aparecida Neto Schemes havia me ensinado antes de sair de casa, eu também mandava consertar os sapatos numa sapataria, porque eu utilizava o dinheiro para comprar livros na área de teologia, inclusive algumas coleções que eram bem caras para minhas condições financeiras. Foi desta forma que fui organizando e montando uma biblioteca particular para estudos e pesquisas teológicas, que até o final da faculdade culminou em mais de 700 volumes de livros.

Nossa turma do curso de teologia, a turma de 1989, ficou muito mais unida nos últimos dois anos do curso. A ponto de fazermos uma festinha para comemorar o fim de cada semestre. Além do comes e bebes tradicional, organizávamos um programa humorístico, com um jornal de notícias de fatos que haviam acontecido com a turma e os professores naquele semestre. Havia também um momento de imitação de alguns professores, seus trejeitos, bordões e manias. Era muito divertido porque todos os professores também vinham para assistir. Eu imitava com uma certa maestria a fala e os gestos do saudoso professor de arqueologia Dr Siegfried Júlio Schwantes. A galera morria de rir, e o próprio Schwantes também. Lembro uma vez que ele veio conversar comigo e me dar os parabéns após eu imitá-lo. Era muito divertido. Nossa turma comenta até hoje (Agosto de 2019), em nosso grupo no WhatsApp, o famoso bordão do professor Schwantes nas aulas de arquelogia bíblica: "A cabra é uma animal terrível, come tudo que vê pela frente"!

As férias de dezembro de 1988 a janeiro e fevereiro de 1989 haviam chegado. Novamente fui colportar em equipe na cidade de Florianópolis, SC. Essas seriam minhas penúltimas férias como colportor estudante. Eu dependia do dinheiro da colportagem para pagar os 70% do valor do semestre como estudante regular. Mais uma vez declarei: "Deus proverá!" E foi o que ocorreu. Com muito trabalho, fé e oração, consegui o estipêndio no final das férias e pude voltar ao colégio pronto para mais um semestre, o qual paguei à vista com os devidos descontos de 10% para quem pagava à vista e mais 30% da bolsa de estudos que a Golden Cross havia me concedido. Todavia, o quarto ano de teologia foi marcante para mim por três grandes razões. 

A primeira razão foi o fato de que comecei a lecionar à noite numa escola na periferia da zona sul de São Paulo, SP, onde ficava localizado o IAE, mais exatamente em Itapecerica da Serra, na Escola Pública Estadual Joaquim Fernando Paes de Barros Neto. Lembro que eu pegava o coletivo lotado no final da tarde para ir dar minhas aulas e voltava à noite chegando tarde no IAE. Ao chegar na guarita do colégio o vigia só me dizia para correr até o dormitório masculino, pois eu tinha o risco de ser mordido pelos pastores alemães que ficavam soltos no colégio depois das 23 horas. Lecionei por nove meses no ano de 1989 nesta escola, graças a indicação de um amigo e colega de curso no teológico, meu primo segundo, Paulo Rojaime, que atualmente é pastor da IASD. Ele estava indo para a Inglaterra e passou a sua vaga naquela escola para mim. Foi uma experiência diferente e única lecionar para alunos do Ensino Fundamental e da EJA (Educação de Jovens e Adultos) a disciplina de Inglês. Gostei e me identifiquei com a experiência de professor, me saí muito bem em sala de aula para quem não tinha formação específica na área da educação. O salário que eu ganhava como professor ACT (Admitido em Caráter Temporário) me ajudou muito a pagar minhas despesas com a formatura. Graças a este emprego pude comprar um terno novo, camisa, gravata e sapatos para a formatura, além de pagar o álbum de fotos e a filmagem, que infelizmente se perdeu com o mofo porque era feita em fita VHS (Fita de Vídeo Cassete).  Esta foi minha primeira experiência como educador, mas eu não sabia e não imaginava que não seria a última, porque até hoje (2019) minhas atividades profissionais giram em torno da educação.

A segunda razão foi que em maio de 1989 eu fui fazer minha primeira semana de oração como estudante do quarto ano de teologia, eu estava com 22 anos de idade. A cidade selecionada para mim foi Mafra no Estado de Santa Catarina, meu campo de origem. Essa semana de oração fazia parte das atividades acadêmicas do curso, e todos os alunos quartoanistas deviam participar. Era uma semana em que as Associações e Missões poderiam conhecer um pouco mais os seus candidatos a um chamado para trabalhar na obra após a conclusão do curso teológico. Desta maneira, quando chegou a data estabelecida fiz minha mala e viajei de ônibus até a cidade de Mafra, SC. Lembro que o irmão Marcelino foi me buscar na rodoviária. Marcelino era um membro da igreja central de Mafra, mas morava no interior, em um sítio onde sua família composta por sua esposa e quatro filhos, um rapaz, uma moça e duas crianças que juntos cuidavam de uma pequena propriedade rural. Cheguei na casa deles numa sexta feira a tarde. Logo começou o pôr do sol e com ele o santo sábado do Senhor, como era inverno escurecia cedo. A família entrou nas horas do sábado concluindo suas atividades com o cuidado com os animais até que tudo estava pronto. Após os devidos banhos foi servido um jantar mais ou menos as nove horas da noite. Fizemos o culto, hinos de louvor a Deus, leitura da Bíblia e oração. Como todos estavam muito cansados inclusive eu, fomos dormir cedo. Eu fui levado até um quarto amplo, com uma cama, uma penteadeira com balcão e espelho e um lustre enorme de porcelana no qual estava pendurada uma lâmpada. Havia uma janela no quarto com cortinas, mas estava bem fechada. O clima era de inverno, estava fazendo frio. Eu podia ouvir o barulho dos grilos cantando lá fora. Eu estava sentado em cima da cama, encostado na cabeceira, lendo a Bíblia, recapitulando meu sermão e estudando a Lição da Escola Sabatina. No sábado de manhã eu iria passar a lição numa das classes e fazer o meu primeiro sermão da minha primeira semana de oração. As horas passaram rapidamente, quando me dei conta já era mais de meia noite. Todos na casa estavam dormindo fazia um bom tempo. A casa era uma construção de madeira com um sótão, o que é bem comum na região. Tudo estava em absoluto silêncio, quando de repente escutei um barulho de vidro estalando, como se fosse um "plim" num cristal. Eu estava de cabeça baixa lendo a Bíblia e quando levantei para ver o que era, vi o lustre de porcelana que estava pendurado por um fio balançando de um lado para o outro do quarto. 

Confesso que a princípio fiquei sem saber o que pensar, mas logo percebi que eu estava diante de uma força sobrenatural negativa, pois eu podia sentir a presença no quarto, o clima ficou pesado, ruim e eu sentia uns arrepios pelo corpo e uma sensação de opressão. O medo quis tomar conta de mim e pensei em sair do quarto e acordar todos meus hóspedes para juntos orarmos. Mas logo voltei meu pensamento para Jesus, me ajoelhei em cima da cama mesmo e orei em voz alta. Após meu clamor a Deus por livramento da presença do mal, ainda ajoelhado e em espírito de oração, eu recitei em voz alta o Salmo 91. Devido as minhas constantes lutas espirituais contra a presença de forças demoníacas em minha adolescência, eu acabei decorando o Salmo 91, e posteriormente os Salmos 01, 23 e 121, os quais eu sei de cor até hoje. Também decorei o texto de Isaías 52:13 a 53:12 que fala do sacrifício do Servo Sofredor, o Messias, o Senhor Jesus. Recordo que enquanto eu recitava o Salmo 91 em voz alta, verso por verso, parecia que ao redor de mim havia uma tormenta, um redemoinho, e eu estava no meio, sem sofrer nenhum dano, sem ser tocado. Pude sentir de perto o poder que a fé na Palavra de Deus tem contra as forças do mal. 

Em seguida sentei na cama onde estava sentado lendo a Bíblia recostado na cabeceira. Pensei o que poderia fazer e decidi ir até o lustre e segurá-lo para parar de ficar balançando e foi justamente isso que eu fiz. Após fazer o lustre para de balançar, desliguei a luz e voltei para a cama. Após eu me cobrir com as cobertas porque era início de inverno e fazia muito frio em Mafra, SC, eu fiquei em estado de oração ou como costumo dizer, em espírito de oração, com meus pensamentos fixos em Deus, na sua bondade, amor, graça e misericórdia. Eu estava falando com Jesus em pensamentos e louvando e agradecendo a Deus por ter ouvido e atendido minhas orações e me livrado do mal, quando senti as cobertas literalmente afundarem em cima de mim, como se algo estivesse querendo me  oprimir. Pensei em me ajoelhar novamente para fazer mais uma oração, porém eu já estava esgotado, cansado e precisava dormir para descansar para as atividades do sábado. Desta forma, decidi que continuaria louvando e agradecendo a Deus por ter ouvido e atendido minhas súplicas e foi assim, falando com Deus, que adormeci profundamente e acordei só pela manhã. 

No sábado de manhã participei de uma classe da escola sabatina dirigindo o estudo da lição. Em seguida, no culto divino fiz meu primeiro sermão na igreja de Mafra, SC. O tema da minha primeira semana de oração era: "Mais Semelhante a Jesus". O hino oficial da semana de oração tinha o mesmo título, como segue abaixo:


Mais semelhante a Jesus
É o que mais eu desejo na vida
Mais semelhante a Jesus
É a vontade sincera nascida em meu ser
Mais semelhante a Jesus
É o ponto de minha partida
Para ter nessa vida alegria e poder
Quero ser mais semelhante a Jesus

Mais semelhante a Jesus
É a mensagem ganhada e vivida
Mais semelhante a Jesus
É a vontade contida de sempre louvar
Mais semelhante a Jesus
É o alvo de minha corrida
Para ter nessa vida alegria e poder
Quero ser mais semelhante a Jesus

Mais semelhante a Jesus
É a minha comida e bebida
Mais semelhante a Jesus
É a vontade acolhida no meu coração
Mais semelhante a Jesus
É a certeza da luta vencida
Para ter nessa vida alegria e poder
Quero ser mais semelhante a Jesus


Como estudante de teologia no SALT/IAE eu gostava muito da disciplina de Cristologia, e como consequência meus sermões sempre foram cristocêntricos. Naquela manhã de sábado e durante todas as noites daquela semana, por oito dias, eu preguei sobre Jesus, seu amor, seu perdão e sua graça. Após o culto, uma família que morava na região central da cidade veio conversar comigo. Não me recordo mais o nome daquela família, mas me trataram como um filho e me fizeram o convite para me hospedar com eles em sua casa, porque eu havia falado no culto da minha intenção de visitar os membros durante a semana no período diurno. Eu aceitei o convite, porque para mim ficaria bem melhor, uma vez que a o irmão Marcelino morava praticamente no sítio, afastado da cidade e a maioria dos membros moravam na região central de Mafra, e além do mais eu não tinha carro e teria que visitar os irmãos à pé. Após o almoço na casa do irmão Marcelino fiz minha mala e expliquei a situação à sua família, agradeci a hospedagem em sua casa e no meio da tarde de sábado fui para a igreja de caminhoneta com os dois filhos mais velhos do irmão Marcelino, pois haveria uma programação JA (Jovens Adventistas). Após a programação que acabou no pôr do sol de sábado, fui levado para a casa daquela família que havia me convidado para me hospedar com eles, e os filhos do irmão Marcelino voltaram pra casa deles. 

Aconteceu que no meio da noite, na madrugada de sábado, quando todos já estavam dormindo na casa dessa família que me acolheu, fui acordado com batidas na porta do quarto onde eu estava dormindo. Era o dono da casa, que com o rosto preocupado me disse que os filhos do irmão Marcelino tinham sofrido um acidente de trânsito na rodovia em direção ao sítio onde moravam. Aqueles irmão me disse que um carro havia batido de frente na caminhoneta onde estavam os filhos do irmão Marcelino. Os dois, o rapaz e a moça, estavam no hospital da cidade em estado crítico. Após me arrumar e fazer uma oração, naquela mesma noite fui junto com aquele irmão ao hospital visitar os dois jovens. Eles estavam conscientes, mas bem machucados e com vários cortes pelo corpo e hematomas no rosto. Eles me contaram como foi o acidente. Disseram que um carro em alta velocidade invadiu a pista contrária e simplesmente veio pra cima deles. Contaram ainda que o guarda da polícia rodoviária lhes disse que deveriam dar graças a Deus por estarem vivos, e que se tivesse mais alguém com eles na caminhoneta alguém teria morrido com certeza. Era para eu estar com eles naquela noite, mas Jesus me protegeu mais uma vez contra as forças das trevas por meio da sua providência e também guardou a vida daqueles jovens irmãos. 

Aquela semana de oração foi muito abençoada. Durante o dia fiz as minhas visitas à casa dos irmãos e pude constatar que algumas famílias da igreja estavam passando por crises espirituais, crises financeiras e problemas no casamento. Orei junto com os irmãos na casa deles e durante todas as noites daquela semana compartilhamos nosso amor e fé em Jesus. Posso afirmar que para mim aquela semana de oração foi uma grande benção, e creio que na vida de cada um daqueles irmãos possa ter sido também. A seguir algumas fotos que tirei naquela semana de maio de 1989 em Mafra, SC.
Da esquerda para a direita: Filho do irmão Marcelino com irmãzinha no colo, sua filha mais velha, Teologando Jorge N. N. Schemes, irmão Marcelino, sua esposa com outra filha no colo. Foto tirada no sábado à tarde antes do acidente com os dois filhos mais velhos do irmão marcelino na caminhoneta, aos fundos.


Família de irmãos que me acolheram em sua casa no centro de Mafra, SC, (infelizmente não lembro os nomes).


Foto tirada na hora do culto de sábado na igreja de Mafra, SC. Pregador: teologando Jorge N. N. Schemes.


Alguns irmãos na saída do culto de sábado de manhã na igreja de Mafra, SC.


 Teologando Jorge N. N. Schemes no centro da cidade de Mafra, SC.


Visão parcial do centro da cidade de Mafra, SC, Maio de 1989.

Após o término da minha primeira semana de oração como estudante de teologia, retornei ao colégio interno, o IAE, Instituto Adventista de Ensino em São Paulo, SP. O ano de 1989 era o meu último ano lá,  e eu precisava obter sucesso em meus estudos na faculdade de teologia, nos estágios e nas minhas últimas férias como colportor estudante, as quais foram em Julho de 1989. Aquele primeiro semestre de 1989 passou rápido e logo chegaram as férias, e junto com elas o desafio de conseguir o dinheiro necessário para pagar o último semestre do Internato e da faculdade de teologia. Eu foi colportar numa equipe de estudantes colportores na cidade de Erechim, RS. Equipe liderada pelo colega de curso e amigo Volnei Kuhl. Ao final das férias Deus havia provido mais uma vez o que eu precisa, de sorte que ao chegar no colégio paguei tudo à vista, com o tradicional desconto de 10% e mais a bolsa de 30% que eu havia recebido da Golden Cross. 

As férias de julho de 1989 marcaram o final da minha participação na colportagem estudantil. Eu havia colportado um total de 14 férias, nas quais pude servir ao Senhor realizando "a obra daquele outro anjo". Durante estas 14 férias o Senhor Jesus havia me conduzido e abençoado na venda de inúmeras publicações da CPB (Casa Publicadora Brasileira). Tenho uma dívida de gratidão à IASD e à CPB por ter me propiciado a oportunidade de participar deste importante ministério por vários anos em minha juventude. A obra da colportagem foi uma segunda escola para mim, aprendi muitas coisas práticas importantes para a vida, tais como: me comunicar melhor, conhecer melhor a natureza humana por meio de uma psicologia prática, gostar de boa leitura, economizar, dar valor à família e aos amigos, saber esperar, ter paciência, saber ouvir as pessoas e sobre a importância de testemunhar de Jesus. Durante os anos de 1982 a 1989 vendi muitos livros e revistas da CPB como se fossem "folhas de outono", dentre eles cito alguns: Vida de Jesus; O Grande Conflito; O Desejado de Todas as Nações; O Despontar de Uma Nova Era; Colunas do Caráter; A Cura e a Saúde Pelos Alimentos; A Ilusão das Drogas; O Drama do Alcoolismo; Caminho a Cristo; Fumar: Distrai ou Destrói?; Forças Misteriosas Que Atuam Sobre a Mente Humana; dentre outros livros e livretos. As revistas que mais vendi foram: Decisão; Mocidade; Atalaia; Nosso Amiguinho; Vida e Saúde, bem como inúmeros folhetos distribuídos gratuitamente. Espero e oro ao Senhor até hoje, para que as centenas e talvez milhares de publicações que vendi e distribuí, como sementes lançadas na terra, possam  ter produzido algum fruto para o Reino de Deus. Lembro de uma livro que vendi para uma vizinha da minha avó, a dona Zizi, como era carinhosamente chamada na vizinhança. Dona Zizi acompanhou toda minha infância e adolescência, praticamente me viu crescer. Ela era fumante fazia mais de trinta anos e fumava em média duas carteiras de cigarro por dia. Quando ela comprou o livro "Fumar: Distrai ou Destrói?" ela duvidou de sua eficácia, ela dizia que não podia ficar sem fumar um único dia, porque ficava muito tonta e com ânsia de vômito. Após fazer os cinco dias de desintoxicação tabágica sugerida naquela obra, dona Zizi nunca mais colocou um cigarro na boca, mesmo convivendo na própria casa com o esposo e filhos que continuaram fumando. Seu esposo infelizmente faleceu de enfisema pulmonar, mas dona Zizi recuperou completamente seu fôlego e sua saúde. Um dia ela disse para minha avó: "Dona Didi (como era conhecida minha avó Osvaldina), eu tive que esperar este menino crescer (se referindo a mim), para me vender um livro para eu deixar de fumar!"

Como já escrevi, o quarto ano de teologia foi marcante para mim por três grandes razões, e a terceira razão foi a morte da minha mãe. Naquelas férias eu havia terminado de colportar mais cedo e retornado para o colégio uma semana antes do início das aulas, que seria no mês de agosto de 1989. Antes de retornar para o colégio eu havia passado em minha casa para visitar meus familiares: Minha avó Osvaldina, minha mãe Miriam, meu irmãozinho André, meu tio Nelson. Eu tinha passado alguns dias com minha família, e nunca imaginava que em relação à minha mãe Miriam seriam os últimos dias que eu estaria com ela. Eu tinha chegado no IAE fazia apenas dois dias quando recebi um chamado da preceptoria para atender uma ligação telefônica urgente. Fui até o dormitório do Ensino Médio para atender a ligação. Ao atender era minha mãe vó Osvaldina de Lages, SC, que me deu a terrível notícia do falecimento de sua filha Miriam, minha mãe. Eu fiquei em estado de choque, porque há dois ou três dias atrás eu tinha estado ao seu lado e estava tudo bem. Sem saber o que fazer ao certo, liguei para minha namorada e amiga Vaurene Ribeiro de Carvalho, a qual não apenas me confortou mas se dispôs a viajar comigo de volta para Lages, SC. Naquela mesma noite eu tinha que ir rápido para o terminal rodoviário do Tietê pegar o primeiro ônibus que pudesse para minha cidade natal, a fim de chegar a tempo para o sepultamento da minha mãe. Quando chegamos em Lages, SC, faltava apenas três horas para que o corpo da minha mãe fosse sepultado. Minha mãe faleceu no dia 27 de julho de 1989. Ela tinha sido uma grande apoiadora em meus estudos e o que ela mais queria era ir em minha formatura de teologia. O sofrimento dos meus familiares, da minha avó materna e de maneira especial do meu irmãozinho André, que era muito apegado a ela e na época estava com 13 anos de idade, também me causaram preocupação e cheguei a cogitar a possibilidade de trancar a matrícula por um semestre para ficar junto deles. Mas após os serviços fúnebres minha avó veio conversar comigo e disse que era pra eu retornar para o colégio e terminar a faculdade, porque essa era a vontade da minha mãe, e era também a sua vontade. 

Fiquei alguns dias com meus familiares após o sepultamento da minha mãe. A morte inesperada dela marcou profundamente minha trajetória final como estudante no curso de teologia. Foi muito difícil voltar para estudar o último semestre. Mas eu busquei em Deus, em seu amor e na Sua graça, forças para concluir meus estudos. Voltei para o IAE em agosto, as aulas já tinham começado fazia uma semana, e eu não falei pra ninguém o que havia acontecido. Eu estava muito triste. Eu estava diferente no colégio, estava pensativo, fechado, reflexivo, em luto. Muitas vezes acordava de noite para orar e chorar. Algumas vezes me pagava chorando pelos cantos. Alguns colegas de quarto ficavam sem entender e apenas perguntavam se estava tudo bem. Muitas vezes quando tinha que ler e estudar eu deixava cair lágrimas de dor, luto e saudade sobre as páginas. Alguns colegas começaram a me rotular de problemático, desequilibrado e inconstante. Creio que alguns têm essa imagem de mim até hoje. Mas eles não sabiam que eu estava sofrendo a perda da minha mãe às vésperas da minha formatura. 

No último semestre de 1989 continuei lecionado à noite. Eu tinha aulas na faculdade pela manhã, à tarde passava horas na biblioteca lendo, pesquisando e fazendo os trabalhos exigidos pelos nossos Mestres, Doutores e Pós Doutores em teologia. Logo chegou o mês de novembro e o período dos temidos exames finais. Naquele tempo a gente tinha que estudar muito para passar nas provas e exames, pois eram todos sem consulta, à moda tradicional. Lembro que eu chegava a estudar mais de 20 horas para fazer um exame final. Não esqueço de um exame que fiz de Grego com o professor Pedro Apolinário. Eu havia estudado tanto, acho que deu mais de 23 horas de estudo, que no dia da prova eu não lembrava de nada, deu o famoso branco. Recordo que entreguei a prova em branco e expliquei a situação para o professor. Depois fui até a casa dele e pedi mais uma chance para fazer novamente o exame. Ele foi muito compreensivo comigo e me disse para eu relaxar, fazer alguma atividade física e que marcaria outro dia para eu fazer a prova. No dia marcado fui fazer o exame e graças a Deus tirei uma ótima nota. Coisas de estudante. 

Quando terminamos a semana de exames finais, o final do mês de novembro chegou e com ele a tão sonhada formatura. Deus havia me abençoado durante aqueles quatro anos no IAE. Eu estava grato. Mas meu coração estava dividido entre a felicidade da conquista final e a perda da minha mãe alguns meses antes. Minha formatura em teologia foi uma mistura de sentimentos, choro de alegria e de saudade porque eu ainda estava em luto. Lembro daquele final de semana como se fosse hoje. Primeiro tivemos um culto de ação de graças na sexta feira à noite na igreja do IAE, foi no dia 24 de novembro de 1989, tendo como orador nosso professor o Pr Orlando Ruben Ritter, no sábado pela manhã também na igreja do IAE houve um culto de consagração dos formandos, o orador foi o Pr George Akers, e no domingo de manhã foi a colação de grau no templo do colégio, cujo orador foi nosso professor o Pr José Maria Barbosa. Eu estava feliz porque algumas pessoas importantes pra mim foram em minha formatura, ou seja: Osvaldina Emy da Silva Muniz, minha avó materna. Sebastião Souza, meu irmão em Cristo e pai na fé. Rute Muniz e Alexandre Marques, respectivamente minha tia que era irmã da minha mãe, e meu primo. Vaurene Ribeiro de Carvalho, minha namorada na época. Pr Wandir Pires de Araújo e sua esposa Clarice, aos quais tenho uma dívida de gratidão por terem hospedado meus familiares em sua casa durante minha formatura. 

Capa do convite de formatura em Teologia dos formandos de 1989


[Continua]




terça-feira, 23 de julho de 2019

Ex Pastor da IASD Conta Tudo! Depoimento - Adolescência e Juventude dos 16 aos 19 Anos de Vida.

O que estou relatando aqui é minha experiência de vida no sentido espiritual, dividido em blocos, por períodos ou fases que passei em minha trajetória cristã. Este próximo período, que vai dos 16 anos aos 19 anos de vida, foi um dos períodos mais significativos em minha experiência espiritual, pois foi justamente neste período que tomei decisões que afetaram diretamente o meu futuro como cristão. Até os 16 anos eu estava frequentando e participando ativamente da IEQ sede de Lages, SC. Como relatei anteriormente, eu estava tão envolvido com as atividades da IEQ que almejava ser um obreiro e posteriormente um pastor, eu já sentia o chamado de Deus na minha puberdade. Mas quase tudo que eu acreditava estava prestes a sofrer um profundo impacto.

Tudo começou numa manhã ensolarada de sábado. Eu estava andando de bicicleta e louvando a Deus quando senti uma alegria indescritível dada pelo Espírito Santo. Senti uma vontade enorme de conhecer mais a Palavra de Deus. Senti fome e sede da Palavra de Deus. Lembro como se fosse hoje, olhei para aquele céu azul, com nuvens brancas e ensolarado e disse para o Senhor Jesus que eu estudaria mais a Sua Santa Palavra, que eu buscaria saber e conhecer cada vez mais sobre a Sua Santa Vontade. Quando cheguei em casa naquela manhã eu estava radiante, e logo fui perguntar para minha avó e para minha mãe como eu poderia estudar mais a Bíblia e aprender mais sobre a vontade de Deus por meio da Sua Palavra. Minha mãe respondeu que na Igreja Adventista do Sétimo Dia - IASD - eles davam cursos bíblicos gratuitos e estudavam muito a bíblia. Foi então que decidi na mesma hora ir até lá, mas já era quase meio dia naquela manhã de sábado e minha mãe me disse que a Escola Sabatina começava as nove horas em ponto. Deste modo, eu teria que esperar até o próximo sábado. Naquela semana eu fiquei muito ansioso para ir na IASD central de Lages, SC, e pedir meu primeiro curso bíblico, eu mal podia esperar para começar a estudar melhor a Palavra de Deus.

Naquela semana continuei frequentando os cultos da IEQ normalmente, pois tinha reuniões quase todos os dias da semana e eu gostava de ir. Não falei nada pra ninguém da minha igreja sobre minha intenção de fazer um curso bíblico da IASD, pois eu não pretendia mudar de religião e muito menos deixar de congregar com o grupo de jovens que tinha me dado tanto apoio espiritual e que eu mantinha profunda amizade cristã.

Quando o sábado chegou, acordei bem cedo, me arrumei para ir na IASD central de Lages, SC, para participar pela primeira vez de uma classe da escola sabatina, eu tinha 16 anos de idade, estava feliz porque finalmente iria estudar mais a Bíblia e conhecer melhor a vontade de Deus para minha vida. Eu não fui na IASD para mudar de religião, ou porque não gostasse da IEQ a qual era membro, mas para simplesmente solicitar um curso bíblico porque meu interesse era estudar mais a Palavra de Deus. Quando cheguei na igreja ainda era bem cedo, devia ser mais ou menos oito e meia, mas já tinha um grupo de pessoas estudando a Bíblia. Achei estranho que tivesse tão pouca gente, eram mais ou menos umas dez pessoas. Estavam todas reunidas nos últimos bancos da igreja formando uma pequena classe de estudo bíblico e havia um professor à frente do grupo coordenando os estudos. Lembro que estavam com um guia de estudos, que mais tarde fui saber que se tratava da lição da escola sabatina. O tema que estavam conversando era sobre o milênio, não entendi muita coisa e fiquei sentado em silêncio apenas ouvindo. As pessoas ficavam me olhando curiosas e confesso que não me senti muito à vontade. Não me recordo de ter ficado até o final, saí antes, sem conversar com ninguém. Enquanto voltava para casa a pé decidi que nunca mais entraria naquela igreja, eu tinha feito um julgamento das pessoas com base na atitude delas comigo, eu tinha achado aquelas pessoas muito frias e indiferentes, um comportamento bem alheio ao que eu vivenciava na igreja pentecostal a qual frequentava, onde as pessoas eram mais fervorosas e acolhedoras.

Apesar desta primeira visita desastrosa o meu desejo de estudar mais a palavra de Deus ardia em meu peito como um fogo divino. Quando cheguei em casa e contei para minha mãe e avó o que havia ocorrido lá na IASD, elas me disseram para eu não desanimar. Continuei orando e pedindo que o Espírito Santo me iluminasse e guiasse no que eu devia fazer.  Passadas algumas semanas, decidi que tentaria pela última vez fazer uma visita na IASD e tentar conseguir um curso bíblico.

Desta vez fui mais perto do horário da escola sabatina, as nove horas da manhã de sábado. Quando cheguei na igreja, havia recepcionistas à porta, perguntaram meu nome  de onde eu era e pediram que eu assinasse um livro de visitas. Sentei mais á frente numa das classes da escola sabatina. O professor da classe, após fazer a chamada dos alunos perguntou quem era visitante e de onde era. Me identifiquei como membro da IEQ central de Lages, SC. Lembro de seu semblante sínico e preconceituoso e de seu comentário: "é uma igreja pentecostal?" Respondi que sim. Me senti um pouco discriminado. Mas eu estava decidido a permanecer até o final. Após o estudo da bíblia na classe da escola sabatina, houve um pequeno intervalo para alguns anúncios e em seguida houve a entrada da plataforma. Lembro da solenidade do  momento, o que me chamou atenção foi o espírito de reverência e adoração que reinou na igreja. Naquela época, 1983, o culto divino tinha uma liturgia muito solene e reverente. Após a entrada da plataforma, os participantes da mesma se ajoelhavam enquanto a congregação permanecia em pé em silêncio. Em seguida o hino inicial de invocação era entoado e a oração de invocação era feita de maneira solene. Dízimos e ofertas eram arrecadados ao som de um hino e uma oração de consagração era feita. Após o hino congregacional se fazia uma oração pedindo a benção de Deus sobre o pregador. Naquela manhã quem fez o sermão foi o pastor Santos Opazo, chileno radicado no Brasil. ele fez um sermão muito significativo e espiritual sobre o perdão e usou como referência o evangelho de João capítulo oito, fazendo citações do Espírito de Profecia no livro "O Desejado de Todas as Nações", de Ellen G. White. Eu nunca havia escutado um sermão assim, com tanta profundidade espiritual. Confesso que fiquei encantado com a mensagem daquela manhã de sábado. A Palavra de Deus estava ardendo em meu coração.

Destarte, uma das coisas que me chamou mais atenção foi a reverência e a solenidade daquele culto, parecia que eu estava diante do trono do altíssimo, eu senti a presença de Jesus e a atuação do Espírito Santo de uma maneira totalmente diferente do que eu estava acostumado nos cultos da igreja pentecostal a qual eu participava. Na saída da igreja percebi que o pastor cumprimentava todos os membros, o que não acontecia na minha igreja. Após cumprimentar o pastor fiquei na frente da igreja esperando ele terminar para pedir um curso bíblico. Foi então que um irmão se aproximou de mim perguntando meu nome e de onde eu era. Ele se apresentou como irmão Sebastião Souza. 

Ao conversar com o irmão Sebastião eu lhe disse de pronto que desejava fazer um curso bíblico, ao que ele prontamente se ofereceu para o levar até minha casa, rapidamente pegou um caderno de anotações e anotou meu endereço dizendo que no início da tarde estaria na minha casa. Quando eu lhe disse que minha avó e minha mãe já tinha sido adventistas seu interesse aumentou e ele me garantiu que iria me levar o curso bíblico na minha casa naquela tarde de sábado. Eu fiquei feliz porque finalmente iria começar a estudar mais a Palavra de Deus.

Quando cheguei em casa comuniquei minha avó e minha mãe que um irmão da igreja adventista viria até nossa casa para trazer um curso bíblico para mim. Logo após o almoço ficamos aguardando a chegada do irmão Sebastião, o que ocorreu após as 14 horas. Lembro que minha avó, meu avô, minha mãe e eu o recebemos muito bem, e logo a conversa começou a girar em torno da bíblia. O irmão Sebastião era muito missionário e conhecia muito bem a Bíblia, sabia de cor vários textos e dominava muito bem os assuntos ao responder cada pregunta com o que estava escrito na bíblia. Não demorou muito para entrar em temas polêmicos, mas ele sempre pedia pra gente abrir a bíblia nos textos e ler em voz alta. Percebi que eu não sabia nada, fiquei até meio constrangido e envergonhado porque como pentecostal fervoroso que eu era eu não sabia sequer um texto de cor e muito menos pesquisar os textos para achar as respostas conforme o que estava escrito na Palavra. Fiquei impressionado com o conhecimento bíblico do irmão Sebastião e com sua capacidade de memorizar os textos. Eu decidi que também queria ter mais a Palavra de Deus gravada em minha mente e em meu coração. Aquela primeira experiência em estudar a Bíblia com o irmão Sebastião me inspirou a ler mais a Bíblia e a decorar textos bíblicos. Eu achei lindo a maneira como aquele irmão usava e manejava a Palavra de Deus e o amor que tinha por ela, coisa que eu não tinha visto na minha igreja. Após este primeiro estudo com o irmão Sebastião, antes dele ir embora já no final daquela tarde de sábado, o mesmo prometeu que voltaria no sábado seguinte, o que me deixou surpreso, porque eu pensava que ele apenas ia me deixar o curso bíblico para eu fazer por conta. Após ele ir embora, minha avó e minha mãe também foram impactadas, eu podia sentir que elas estavam incomodadas com alguma coisa, mas eu não sabia o que era. Eu tinha 16 anos de idade quando isto ocorreu e era membro a IEQ central de Lages, SC, e minha intenção não era mudar de religião.

Durante a semana eu continuei frequentando os cultos da minha igreja, mas algo tinha mudado em relação à Bíblia, eu estava lendo mais, meditando, pesquisando e estudando a Palavra de Deus, e estava me fazendo muito bem. No sábado seguinte eu não fui ao culto da IASD, mas à tarde fiquei esperando a visita do irmão Sebastião com certa ansiedade. Ele não tinha me deixado todo o curso bíblico, mas apenas a primeira lição, sendo assim eu queria muito continuar a estudar os temas bíblicos. Lembro que a primeira lição falava sobre a inspiração da Palavra de Deus. Quando o irmão Sebastião chegou ficamos mais uma tarde lendo e estudando a Bíblia, mas desta vez eu fiz alguns questionamentos sobre algumas declarações feitas por ele, ao que ele sempre respondeu com textos bíblicos. Um dos questionamentos foi em relação aos dez Mandamentos da Lei de Deus. Quando o irmão Sebastião me disse e mostrou na Bíblia que o mandamento do sábado ainda estava vigente eu fiquei impressionado, porque eu mesmo lia os textos bíblicos que ele indicava e eu me perguntava: mas como eu nunca li sobre isto na Bíblia?  Após ele ir embora, eu estava com muitos questionamentos em minha mente, e naquela semana decidi procurar o pastor da IEQ para que ele pudesse me ajudar a entender melhor. Quando questionei o pastor da minha igreja sobre o sábado do quarto mandamento ele sorriu e me disse que era só para o Judeu. Disse ainda que o que importava era santificar um dia na semana para Deus, e que meu sábado seria o dia em que eu repousasse, e que estávamos debaixo da graça e não debaixo da Lei. Disse ainda que os discípulos de Jesus guardavam o domingo porque Jesus havia ressuscitado no primeiro dia da semana. Confesso que fiquei decepcionado com aquelas explicações, pois em nenhum momento o pastor abriu a Bíblia para me mostrar onde estava escrito tais argumentos. Decidi então que iria orar e estudar a Bíblia e pedir ao Espírito Santo para ser meu mestre e meu professor.

Nos sábados seguintes outros questionamentos surgiram em relação aquilo que eu acreditava na IEQ; Como por exemplo: a imortalidade da alma, os milagres, a santidade do domingo, o dom de línguas e qual era a igreja verdadeira. Confesso que comecei a odiar as visitas do irmão Sebastião, e meu comportamento e atitudes em relação a ele mudaram, pois eu estava ficando com dúvidas e confuso em relação ao que eu acreditava, mas ao mesmo tempo eu estava sendo convencido pela Palavra de Deus. Lembro que a gota d'água foi num sábado a tarde em que o irmão Sebastião afirmou que quem santificava o domingo estava com o sinal da Besta e não o sinal de Deus, e que os milagres da minha igreja eram operados por espíritos de demônios inclusive o dom de línguas, eu me revoltei com ele. Lhe pedi para me deixar todas as lições do curso bíblico porque  eu iria estudar por conta. Ele prontamente me deixou. No sábado seguinte, antes que ele chegasse à minha casa eu peguei minha bicicleta, minha bíblia e o curso bíblico e fui para o estádio de futebol estudar a bíblia sozinho. Lembro que eu fiquei lá até o final da tarde daquele sábado, e quando eu voltei para minha casa tive o cuidado de verificar se o carro do irmão Sebastião ainda estava parado na frente dela, pois se tivesse eu não iria voltar para não ter que conversar com ele. Fiz isto pelos próximos sábados. Enquanto isso, eu orava pedindo uma revelação especial a Deus sobre qual era a igreja verdadeira. Lembro que cada tarde de sábado que eu passava nas arquibancadas vazias do estádio de futebol do Internacional de Lages, junto com os passarinhos que ficavam cantando no gramado do campo, cada uma daquelas tardes teve um significado espiritual profundo em minha vida cristã, pois era apenas eu, a Palavra de Deus e o Espírito Santo a me iluminar. Eu sentia muito a presença de Jesus comigo.

Foi o estudo da Bíblia e a prática da oração que causaram profundas mudanças em minhas convicções religiosas, a ponto de eu tomar a decisão de começar a santificar o sábado do quarto mandamento mesmo sendo membro da IEQ. Aos domingos de manhã eu ajudava na escola bíblica dominical, porém, como queria santificar o sábado conforme está escrito na Palavra de Deus eu tive que tomar a decisão de frequentar também a escola sabatina na IASD central de Lages, SC. Desta forma, aos sábados pela manhã eu ia na escola sabatina e aos domingos pela manhã eu ia na escola dominical. Fiz isso durante alguns finais de semana, e todas as vezes que fui na IASD eu não havia visto o irmão Sebastião. Ele também havia parado de ir até minha casa, pois nunca me encontrava lá. Cheguei a pensar que aquele irmão tinha desistido da fé, pois eu não o via mais. Todavia num sábado à tarde ele apareceu na minha casa, o que foi motivo de alegria para mim. A primeira coisa que perguntei a ele foi se havia deixado de frequentar a igreja adventista, ao que ele me respondeu que não e questionou o porquê da minha pergunta. Eu não sabia, mas ele havia "sumido" por um tempo porque estava envolvido num evangelismo num dos bairros da cidade onde ainda não havia igreja adventista. Então lhe disse que eu estava frequentando a escola sabatina e que tinha me matriculado numa das classes. Ele ficou muito feliz com minha notícia. Mas quando eu lhe disse que ainda continuava na IEQ e que eu ajudava na escola dominical, ele me afirmou que eu não podia honrar o sinal da besta e guardar o sábado do Senhor ao mesmo tempo. Eu mesmo já tinha percebido que eu não poderia ficar naquela situação por muito tempo, e que eu precisaria tomar uma decisão radical em favor de um dos dois lados. Então comecei a orar fervorosamente por respostas.

Como um bom pentecostal que eu era, nas reuniões de oração na IEQ e em casa no meu quarto eu comecei a pedir um sinal para Deus, de qual era a igreja verdadeira, quem tinha a verdade da palavra de Deus. Eu clamava ao Senhor Jesus por um milagre, por uma revelação divina por meio de um sonho ou de uma visão. Os dias passaram enquanto eu buscava uma resposta direta de Deus por meio do Espírito Santo, até que numa manhã minha mãe me disse que tinha tido um sonho muito estranho. Ela me contou que em seu sonho ela tinha visto várias igrejas de diferentes denominações, e que todas estavam pegando fogo, menos a Igreja Adventista do Sétimo Dia. Imediatamente pensei em duas interpretações: ou a IASD era a única que não tinha o Espírito Santo, pois o fogo na Bíblia é usado como um dos símbolos do Espírito de Deus, ou a IASD era a única que não estava debaixo da condenação de Deus, uma vez que o fogo na Bíblia também é usado para descrever o juízo divino. Orei a Deus para que me orientasse e me guiasse não mais por sonhos e visões, mas unicamente pela Sua Santa Palavra sob a luz do Espírito de Cristo.

O que se seguiu foi que eu continuei frequentando a IEQ onde tinha muitos irmãos e amigos, mas tomei a decisão de santificar o sábado do quarto mandamento e aos sábados eu frequentava a IASD. Minha luta foi para fazer a vontade de Deus revelada em Sua Santa Palavra. Porém, quando recebi um estudo bíblico sobre o dom profético dado a Ellen G White as coisas ficaram muito mais complicadas e difíceis para mim. Eu estava numa angústia muito grande. Quando levei o novo conhecimento que estava adquirindo sobre o Espírito de Profecia para meus amigos e irmãos pentecostais, a primeira coisa que ouvi eles dizerem é que Ellen G. White era uma falsa profetiza. Mas eles nunca tinham lido nada escrito por ela, e quando fui falar com o pastor da IEQ, Pedro Antipas, ele me afirmou que se tratava de uma falsas profetiza. Como eu nunca tinha ouvido falar dela, e nunca tinha lido nada sobre ela, comecei a orar e pedir que o Espírito Santo me guiasse e iluminasse, pois se Ellen G. White de fato fosse uma falsa profetiza eu jamais pisaria dentro de uma Igreja Adventista do Sétimo Dia. Aconteceu que, orientado pela minha mãe e avó, eu descobri que dentro da minha casa havia um livro de Ellen G. White, era um livro em formato de Bolso intitulado: "Vereda Para Cristo", como mais tarde fiquei sabendo era chamado carinhosamente de "veredinha". O livro estava guardado em uma gaveta, estava sem capa, mas com todas as páginas intactas. Comecei a ler avidamente, na expectativa de encontrar alguma heresia, uma vez que haviam me dito que Ellen G. White era uma falsa profetiza. Quando terminei de ler, eu estava me sentindo mais perto de Jesus e de Sua Palavra. Não me contentei e li novamente de capa a capa. Quando terminei, li novamente todo o livro por mais quatro vezes, somando um total de sete leituras completas do livro. Eu lia e orava, pedindo a benção de Deus. Não havia nada que desqualificasse a Bíblia, não havia nada que exaltasse Ellen G. White. Pelo contrário, o livro que hoje se chama "Caminho a Cristo", apenas exaltava a Palavra de Deus e o nome de Jesus como Salvador e Senhor. Na realidade o livro estava fundamentado na Palavra de Deus, e eu me sentia mais próximo do adorável Jesus. Cheguei a conclusão que Ellen G. White só poderia estar sob a inspiração do Espírito Santo para escrever o livro "Caminho a Cristo". Minhas dúvidas estavam sendo removidas uma a uma, e quanto mais eu estudava a Bíblia, quanto mais eu orava, quanto mais eu me aproximava de Jesus, mais certeza eu tinha que a IASD estava pregando o Evangelho Eterno.

O final do ano estava chegando, e com ele as férias escolares. Eu estava cursando o primeiro ano do ensino médio, o ano era de 1982. Eu não estava indo muito bem na escola por conta de noites mal dormidas e enfrentamentos espirituais constantes com forças das trevas. Acordava de madrugada ouvido barulhos dentro de casa, estalos, meu corpo arrepiava e sentia a presença de espíritos malignos, além de sofrer algumas vezes com pesadelos que pareciam muito reais. Era uma luta espiritual intensa nas madrugadas. Mas Jesus nunca me deixou sozinho, Ele sempre esteve ao meu lado e sempre ouviu e atendeu minhas súplicas por libertação.

Um determinado sábado a tarde, quando eu já estava de férias, no mês de dezembro de 1982, fui surpreendido com a visita do irmão Sebastião Souza e mais dois homens que vieram com ele. Um deles era pastor ou estava estudando para ser um pastor, não me recordo muito bem, e o outro era um colportor evangelista. Eles me disseram que na minha cidade tinha um grupo de jovens colportores. me explicaram o que era a colportagem evangelística da IASD, e que tinha um apoio institucional e uma orientação profética por meio de Ellen G. White. Esse grupo de jovens eram estudantes dos colégios internos adventistas que nas férias saíam para vender livros de porta em porta para pagar os seus estudos com o lucro de suas vendas e também com um bônus em forma de bolsa de estudos que a editora da IASD, a Casa Publicadora Brasileira concedia para aqueles que vendiam para atingir uma determinada meta.

Aqueles homens de Deus perguntaram se eu tinha interesse em participar. Como eu estava de férias e me interessei bastante, de pronto aceitei o convite. Era uma experiência nova para mim. Fiquei empolgado com a ideia de poder levar a Palavra de Deus de porta em porta, além de ganhar algum dinheiro nas férias. eu estava ansioso e curioso para iniciar logo. Eles me deram o endereço onde a equipe composta por cerca de vinte jovens estava alojada. Decidi de imediato que ficaria junto com eles no mesmo alojamento e não na minha casa. Logo no domingo fiz minha "mudança" com uma mala de roupas e roupas de cama. Logo na minha chegada fui bem recebido pelos estudantes e não demorou muito para eu me enturmar e fazer novas amizades. O local ficava no centro da cidade de Lages, e minha família não se opôs que eu ficasse junto com eles durante as minhas férias.

Assim que me alojei recebi um trinamento básico para fazer o trabalho. recebi um prospecto dos livros "O Grande Conflito", "O desejado de Todas as Nações", "Vida de Jesus" e várias revistas missionárias. Na segunda feira eu saí juntamente com outro jovem colportor estudante pela primeira vez para colportar, mesmo sem ser um membro da IASD. Eu não sabia, mas tinha sido votado uma autorização pelos líderes da igreja e da Associação Catarinense para que eu pudesse trabalhar como colportor estudante naquelas férias mesmo sendo membro da IEQ e não da IASD. Logicamente que para vender os livros eu tive que ler e estudar cada um. E foi assim que comecei a vender literatura adventista e alguns livros de Ellen G. White com 16 anos de idade.

O principal livro que eu vendi naquelas férias foi o "Vida de Jesus", e este foi meu segundo livro lido de Ellen G. White. Enquanto os dias passavam eu recebia alguns estudos bíblicos e participava da rotina da equipe de colportores estudantes. Lembro que as quartas-feiras á noite, aos sábados pela manhã e aos domingos à noite todos se arrumavam com sua melhor roupa e iam para a IASD central de Lages. Era interessante ver a reação das pessoas na rua, ao verem um grupo de jovens bem vestidos, com roupa social ou de terno e gravata segurando a Bíblia e o Hinário Adventista do Sétimo Dia nas mãos indo adorar a Deus na igreja. Naquelas férias eu frequentei apenas a igreja adventista e confesso que cheguei a esquecer da IEQ da qual eu ainda era membro, pois eu estava tão envolvido e comprometido com aquele trabalho que não tinha tempo de pensar noutras coisas. Eu estava fascinado com aquele trabalho, pois eu podia falar de Jesus para as pessoas, vender livros que continham a mensagem do Evangelho Eterno e ainda ganhar algum dinheiro como resultado do meu empenho. Tudo isso sem nenhum custo inicial para mim, pois a editora Casa Publicadora fornecia todo o material em consignação para acertar tudo no final da campanha de férias. Confesso que aprendi muito naqueles meses de dezembro de 1982, janeiro e fevereiro de 1983.

Tive algumas experiências espirituais profundas enquanto estava lá com aquela equipe de jovens estudantes colportores. Fiz novas amizades e novos irmãos em Cristo que mantenho até hoje (2019) passados todos esses anos. Mas o que mais me chamou a atenção foi o fato que desde o primeiro dia que cheguei no alojamento da equipe até o último dia que dormi lá, nenhuma noite eu fiquei sem dormir ou tive enfrentamentos espirituais como costumava ter. Era como se Jesus e seus anjos estivessem constantemente acampados ao nosso redor, eu sentia muito a presença de Deus entre nós. Aprendi durante aquele período a importância do culto diário e do estudo diário da Bíblia por meio da lição da escola sabatina. Em nenhum momento que estive entre aquele grupo eu me senti discriminado, pelo contrário, eu via a Cristo em cada um daqueles jovens, eles eram diferentes, amavam a Jesus, eram sábios na Palavra de Deus e procuravam obedecer os mandamentos de Deus. Eu me sentia inspirado no meio deles. Eu observava todo o comportamento deles e ficava impressionado com seu cristianismo. Havia cultos todas as manhãs antes de iniciarmos nosso trabalho, e à noite quando todos já tinham chegado também havia um culto, a gente cantava hinos, meditava na Palavra de Deus ou em algum trecho do livro "O Colportor Evangelista" e orávamos em duplas ou em grupo. Lembro que eu sentia uma paz muito grande e me sentia livre da presença do mal. Aquelas férias foram inesquecíveis. Aquelas férias e aquela experiência na obra do terceiro anjo, a colportagem evangelística marcaram minha vida para sempre e causaram um profunda transformação em minha história de vida.

Em relação ao trabalho da colportagem evangelística, em meu dia a dia quando eu ia oferecer os livros ou dar uma oferta como costumávamos dizer, sempre, antes de bater numa porta eu fazia uma oração e pedia a benção de Deus. Quando eu não vendia nenhum livro, eu oferecia uma revista evangelística, que na época era a revista "Decisão", mas também havia outras opções como revista "Mocidade", "Vida e Saúde" ou "Nosso Amiguinho". Quando eu não vendia nem uma revista eu deixava pelo menos um folheto com mensagem bíblica. Era muito gratificante fazer a obra de Deus. o Senhor me abençoou muito naquela minha primeira experiência.

Os dias passaram rapidamente e logo chegou o mês de Fevereiro. Quando me convidaram para o batismo eu aleguei que já era batizado. Contudo, após um estudo Bíblico sobre o tema, ficou claro pra mim a necessidade de me batizar na IASD, uma vez que onde eu estava frequentando, na IEQ, apesar da minha sinceridade, eu estava violando o mandamento de Deus em relação ao sábado. Não foi fácil para mim tomar aquela decisão. Eu tinha muitos amigos e conhecidos na IEQ, e eu gostava da companhia deles e do convívio cristão que a IEQ proporcionava. Mas eu já não ia num culto lá fazia uns três meses, e eu precisava me despedir deles e explicar minha decisão. Decidi que após meu batismo na IASD eu iria fazer minha última visita na IEQ.

Desta maneira, após estar convencido das verdades contidas na Palavra de Deus, fui batizado no dia 19 de Fevereiro de 1983 na Igreja Adventista do Sétimo Dia central de Lages, SC. Lembro que após meu batismo o irmão Horácio Goulart me chamou em particular e me deu três conselhos que me servem até os dias de hoje. Ele me disse: "Irmão Jorge, aqui dentro da igreja ninguém é teu exemplo ou modelo, teu único exemplo e modelo é Cristo, olhe só para Jesus. Nunca deixe de orar um único dia, pois é assim que você vai falar com Deus. E nunca deixe de ler a Bíblia um único dia, pois é assim que Deus vai falar com você!"

Minha história, juntamente com a de outro jovem, o Antônio Muniz, que também colportou sem ser adventista e também se batizou comigo naquele sábado de manhã, foi registrada de maneira resumida e publicada em periódico oficial da IASD como pode ser constatado nos links a seguir.

Revista Adventista de Maio de 1983 - Reportagem especial: "Frutos da Colportagem", páginas 25,26.

http://acervo.revistaadventista.com.br/cpbflip.cpb?ed=1640&s=467955979  - RA/Maio/1983.







Pr Eliseu de Oliveira lendo o voto batismal para Jorge N. N. Schemes (à esquerda) ladeado por Antônio Muniz

Jorge N. N. Schemes sendo batizado nas águas pelo Pr Eliseu de Oliveira (Departamental de Colportagem)


Salatiel (Líder da equipe de colportores estudantes)  entregando o certificado de batismo à Jorge N. N. Schemes

Equipe de colportores estudantes que atuou em Lages, SC, nas férias de verão em 1982/1983


Jorge N. N. Schemes

Após o meu batismo nas águas aos 16 anos de idade, e com o término da campanha dos colportores estudantes, tive que enfrentar uma dura realidade. Depois que meus colegas foram embora e a maioria voltou para os internatos adventistas, agora como ex membro de uma igreja pentecostal, eu era um Adventista do Sétimo Dia convicto das mensagens para este tempo do fim, mas percebi que a rotina na IASD era bem diferente da IEQ. Logo me dei conta de estar frequentando cultos de oração nas quartas feiras à noite em que havia apenas três ou quatro pessoas. Eu não entendia aquela frieza e indiferença para com os cultos de oração, pois na minha antiga igreja pentecostal esse era o principal culto, no qual se buscava fervorosamente o batismo no Espírito Santo. Sinceramente, foi um choque pra mim, pois eu estava acostumado a frequentar os cultos da IEQ nos quais a igreja estava praticamente lotada, era uma igreja grande, com capacidade para cerca de 300 pessoas, só o grupo de jovens tinha mais de 100 jovens e adolescentes. De repente me vi dentro da IASD com um número bem reduzido de membros e de frequentadores dos cultos de domingo e quarta feira à noite, sendo que no sábado pela manhã a igreja estava sempre lotada. Outra coisa que senti falta foi do cumprimento dos irmãos com a paz, na IASD não tinham esse costume e eu sentia falta de mais fervor espiritual. Então decidi que da minha parte eu não seria morno.

Após o fim da colportagem de férias e logo após meu batismo na IASD, quando tive que voltar pra a casa da minha avó, não demorou muito para que os demônios começassem a me perturbar nas madrugadas. Eu sabia que minhas lutas iriam aumentar, pois agora eu estava sob uma nova luz da Palavra de Deus e do Espírito de Profecia. Quando eu acordava nas madrugadas sentindo a presença do mal, eu não temia mais, eu me apegava à palavra de Deus e a prática da oração da fé. Jesus sempre ouviu e atendeu minhas orações, sempre me protegeu e guardou. Eu estava feliz com minha nova experiência cristã. Mas eu precisava me despedir dos meus amigos e irmãos da IEQ, sendo assim fui numa reunião de jovens num domingo à tarde na sede de Lages, SC. Lá me deram a oportunidade de falar em público e dei minha mensagem para aqueles jovens falando de fé e confiança em Deus. Foi minha última participação na IEQ.

O tempo foi passando, e minha dedicação na IASD central de Lages, SC, era total. Eu não faltava em nenhum culto, e sempre que me convidavam para participar eu nunca neguei. Mesmo no inverno rigoroso eu não faltava aos cultos, às vezes no culto de oração das quartas feiras à noite tinha apenas eu, o irmão Horácio e o irmão Sebastião, meu pai na fé. Mesmo com tanta mornidão eu estava feliz em Jesus e nas verdades da Sua Palavra. Quando eu era pentecostal raramente lia e estudava a Bíblia, agora, como membro da IASD passei a amar, ler e estudar a Palavra de Deus diariamente e avidamente por meio do ano bíblico que era incentivado pela igreja a cada início de um novo ano. Guardei de lembrança meus dois primeiros anos bíblicos devidamente anotados, confira abaixo:



O ano era 1983, e eu tinha sido reprovado na escola no ano anterior, assim, tive que cursar novamente o primeiro ano do Ensino Médio, mas com uma diferença crucial, eu estava decidido a nunca mais reprovar, pois eu queria ir para o IAE - Instituto Adventista de Ensino - Atual UNASP, em São Paulo, SP, estudar teologia e ser um pastor da IASD.

Apesar de toda minha dedicação na IASD naquele ano de 1983, ainda restava uma última dúvida doutrinária em minha mente, era sobre o batismo com o Espírito Santo e o dom de línguas. Eu já havia recebido estudos sobre isso, mas a dúvida ainda persistia, desta maneira, o que fiz foi dobrar os joelhos e por mim mesmo estudar o assunto direto na Palavra de Deus. E foi lendo Atos 2 e I Coríntios 14 verso por verso e pedindo a iluminação do Espírito Santo em oração que entendi o verdadeiro significado do dom de línguas e do batismo com o Espírito Santo. Posso afirmar que enquanto eu era pentecostal sempre havia estudado textos separados de seu contexto, mas agora tudo estava claro sob a direção do mestre dos mestres, o Espírito Santo de Deus. Estou falando disso porque para um pentecostal a experiência de falar em línguas estranhas é muito marcante, pois significa o sinal do batismo no Espírito Santo. Enquanto eu estava na IEQ presenciei alguns casos de pessoas que estavam falando em línguas e o pastor foi até elas e expulsou demônios. Havia a crença de que mesmo essa manifestação podia ser falsificada pelo mal, e nem todos os que falavam em línguas estranhas tinham o aval divino, alguns casos eram possessão demoníaca. Outro caso era de pessoas que falavam pela carne, ou seja, imitavam as demais, fingiam que estava recebendo um suposto Espírito Santo, se emocionavam, pulavam, gritavam e choravam muito, mas era tudo teatro. depois que entendi o assunto pela Palavra de Deus e iluminado pelo Espírito de Jesus, cheguei a conclusão que além desses dois fatores tinha um terceiro, o de pessoas que falavam em línguas por manipulação e indução psicológica por parte do pastor e devido ao momento extremamente frenético e emotivo do ambiente de culto, onde muitas vezes a racionalidade é praticamente deixada de lado. Sem esta última dúvida eu estava pronto para prosseguir com fé e atingir a meta que o Espírito de Jesus havia colocado em meu coração, o de ser um pastor ordenado da IASD.

Todavia, não seria tão fácil assim atingir a meta de ser um pastor da Igreja Adventista do Sétimo Dia, porque minha família não tinha condições financeiras e eu era apenas um jovem estudante do Ensino Médio. Com meu batismo e minha dedicação no serviço cristão, logo minha mãe e minha avó voltaram a frequentar a igreja e votaram a santificar o sábado do quarto mandamento em honra ao Deus criador e redentor. Isso foi para mim motivo de grande alegria. Mas minhas lutas espirituais com as forças das trevas continuaram em praticamente todas as madrugadas, principalmente nas sextas feiras para amanhecer o sábado. Como eu estava focado em servir a Jesus, logo a igreja me convidou para ser professor da escola sabatina, ao que aceitei prontamente. Também recebi convites para fazer sermões nas quartas feiras no culto de oração e aos domingos, raramente aos sábados, pois ei ainda era um neófito na fé e nas doutrinas adventistas.

Meu sonho era estudar em um internato adventista, deste modo durante o ano de 1983 escrevi cartas para alguns colégios, ou seja, IACS, IAP e IAE, solicitando uma vaga como aluno bolsista industriário. Recebi um retorno positivo de um deles, me oferecendo a oportunidade de estudar como aluno bolsista e pagar o colégio com meu trabalho no contra turno dentro do próprio colégio. Lembro que quando recebi a carta de admissão eu orei ao Senhor e tive a impressão de que não deveria ir, mas ao invés disso deveria optar pela obra da colportagem nas férias de verão que se aproximavam. E foi justamente isso que fiz, decidi que eu iria colportar mais uma vez e iria estudar com o dinheiro que eu ganhasse na colportagem como colportor estudante.

Quando o ano estava findando, antes de acabar minhas aulas, eu demonstrei interesse em colportar novamente nas férias de verão de 1983/1984. Como eu tinha contato com a Associação Catarinense da IASD por meio do departamento de publicações através o pastor Eliseu de Oliveira que havia feito meu batismo, pois havia me tornado um colportor efetivo ocasional, não foi difícil saber onde a mesma equipe que eu havia trabalhado pela primeira vez estaria naquelas férias. Eu tinha mantido contato com muitos daqueles jovens colportores estudantes e irmãos em Cristo por meio de cartas. A equipe era liderada pelo jovem Salatiel, e eu havia recebido um convite dele para ir para Campo Grande, MS, colportar com a equipe.

Eu havia terminado o primeiro ano do Ensino Médio com sucesso. No início do mês de dezembro de 1983 eu participei de uma reunião promovida pelo Rotary Club de Lages, SC, por meio das Soroptimistas, para receber um prêmio em dinheiro. Foi um jantar no qual até o prefeito da cidade estava presente. Eu havia participado de um concurso de redação promovido pelas Soroptimistas e havia ficado em segundo lugar. O tema da redação era sobre os Dez Mandamentos. Lembro que em meu texto usei uma citação de Ellen G. White mencionando seu nome, a qual foi sublinhada pela banca examinadora. Um livro de Ellen G. White que me ajudou muito na minha vida de estudante foi: "Conselho aos Professores, Pais e Estudantes", e foi desse livro a citação, que dizia: "Um jovem sincero, consciencioso e fiel numa escola é um inestimável tesouro".

Link para o livro "Conselhos aos Professores, Pais e Estudantes" em PDF:
http://www.centrowhite.org.br/files/ebooks/egw/Conselhos%20aos%20Professores,%20Pais%20e%20Estudantes.pdf

Lembro que naquela mesma noite no início do mês de dezembro eu estava com passagem de ônibus comprada para viajar para Campo Grande, MS, onde teria minha segunda experiência na obra da colportagem. O dinheiro daquele prêmio literário eu pedi para minha avó depositar na caderneta de poupança junto com o dinheiro que eu tinha ganhado na minha primeira colportagem nas férias anteriores, pois já que minha família não poderia pagar a faculdade de teologia no SALT (Seminário Latino Americano de Teologia), no IAE (Instituto Adventista de Ensino), em São Paulo, SP, eu resolvi me preparar e guardar todo dinheiro que eu pudesse para quando eu fosse estudar lá. Eu estava com 16 anos, prestes a fazer 17 anos de idade no dia 16 daquele mês de dezembro de 1983.

Minha avó foi me levar até a rodoviária de Lages por volta da meia noite, horário em que meu ônibus sairia. Lembro do seu semblante preocupado e de seu pedido para escrever uma carta assim que eu chegasse lá, lembrando que na época não havia celulares nem Internet e os telefones fixos custavam o preço de um carro zero. Ela era uma mulher de oração e eu sabia que podia contar com suas orações de fé, e que tudo daria certo. Eu disse a ela o que sempre dizia quando me perguntavam como eu iria pagar os meus estudos: "Deus proverá"! Deste modo, iniciei minha viagem de aproximadamente 25 horas até Londrina, PR, onde faria uma baldeação para Campo Grande, MS. Foi uma viagem cansativa, mas cheguei ao meu destino em segurança e quando desembarquei na rodoviária de Campo Grande eu estava por minha conta, sob a direção de Deus.

A única informação que eu tinha do local onde estava alojada a equipe de colportores estudantes era na escola adventista do bairro Amambaí, ao lado da igreja, onde também ficava o escritório da Associação da IASD. Resolvi economizar algum dinheiro com táxi e peguei um ônibus até o bairro. Já estava escuro e eu carregava uma mala de roupas e um colchão fininho enrolado e amarrado, pois dormíamos no chão de uma sala de aula. Eu também tinha dinheiro suficiente para pagar uma passagem de volta se algo desse errado. Lembro que caminhei pelas ruas do bairro e fui me informando com as pessoas sobre onde ficava a escola adventista, que era bem conhecida na região. Logo passei em frente a Associação e não demorou muito para achar o local. me senti aliviado ao reencontrar alguns amigos e irmãos que haviam colportado comigo na minha cidade natal. Logo o Salatiel veio conversar comigo e me dar as boas vindas. Naquela mesma noite ele definiu um campo de trabalho pra mim no mapa da cidade. No dia seguinte, após o culto matinal e o lanche da manhã, eu saí para trabalhar com fé e confiança em Jesus, levando comigo alguns textos da Bíblia e do livro "O Colportor Evangelista", os quais eu lia antes de entrar em cada casa ou comércio e de fazer uma oração. Trabalhei aquele dia todo e por incrível que pareça após dar em média umas 15 ofertas do material que eu estava vendendo, não consegui vender nada, nenhum pedido. Eu fiquei desanimado, e me perguntava: "O que eu estou fazendo aqui?" Ao voltar para o alojamento na escola adventista, já era noite, eu estava cansado e pensei em voltar para minha cidade no dia seguinte. Dinheiro para passagem eu tinha. Quando cheguei no alojamento, após tomar um banho e conversar com meus colegas, fui orar e ler o livro "O Desejado de Todas as Nações", um dos livros que eu estava vendendo junto com o livro "A Cura e Saúde Pelos Alimentos". Após passar algum tempo em comunhão com Jesus minhas forças e meu ânimo foram renovados.

No dia seguinte saí para trabalhar confiante nas promessas de Deus e comecei a vender livros e revistas missionárias, Eu dava em média 15 ofertas por dia dos livros por meio de um prospecto, e graças a Deus eu vendia alguma uma coleção ou um livro separado ou revista em média em 12 ou 13 das ofertas. Minhas ofertas duravam em média de 30 a 45 minutos desde o primeiro contato até o fechamento da venda por meio de um pedido. Deus estava me abençoando. Eu trabalhava debaixo de sol e debaixo de chuva, aliás, em Campo Grande chovia quase todos os dias uma chuva de verão no final da tarde. Era o mês de dezembro, e meu aniversário estava chegando, no dia 16/12/1983 eu faria 17 anos de idade. Foi a primeira vez que passei meu aniversário, natal e ano novo longe da minha família. Eu escrevia cartas contando tudo o que ocorria e lembro de ter escrito uma agradecendo por tudo que minha mãe e avó faziam por mim, pois em casa eu tinha comida pronta na mesa todos os dias e roupa lavada, e agora eu tinha que me virar para comer e lavar minha própria roupa, o que eu aprendi ao custo de rasgar algumas. Como chovia uma pancada de chuva de verão todos os dias no final da tarde, às vezes eu chegava no alojamento no começo da noite e minhas roupas tinham caído do varal no chão devido ao vento e chuva fortes. Mas tudo foi um grande aprendizado pra mim, amadureci muito com aquela experiência.

Uma experiência que marcou aquela colportagem foi uma venda coletiva que fiz numa reunião do Rotary Club da cidade. Quando cheguei no local a reunião não tinha começado. Me apresentei como estudante de Santa Catarina que estava fazendo uma campanha sobre saúde na cidade e pedi permissão para apresentar meu material para todos os membros do Rotary na reunião. O responsável disse que sim, e me convidou para participar do jantar com eles, e me disse que após o jantar ele me daria a palavra e eu poderia falar. Fiquei nervoso, pois naquela reunião estariam os homens mais importantes da cidade, empresários, médicos, fazendeiros e profissionais liberais. Lembro que assim que começaram a chegar eu fiquei em pé num local aos fundos da sala. Lembrei das palavras de Jesus em Lucas 14:7-11: "E disse aos convidados uma parábola, reparando como escolhiam os primeiros assentos, dizendo-lhes: Quando por alguém fores convidado às bodas, não te assentes no primeiro lugar; não aconteça que esteja convidado outro mais digno do que tu; E, vindo o que te convidou a ti e a ele, te diga: Dá o lugar a este; e então, com vergonha, tenhas de tomar o derradeiro lugar. Mas, quando fores convidado, vai, e assenta-te no derradeiro lugar, para que, quando vier o que te convidou, te diga: Amigo, sobe mais para cima. Então terás honra diante dos que estiverem contigo à mesa. Porquanto qualquer que a si mesmo se exaltar será humilhado, e aquele que a si mesmo se humilhar será exaltado". E foi exatamente isso que eu fiz. Quando todos os membros do Rotary já estavam sentados, o presidente me anunciou a todos e me convidou para sentar ao seu lado ao centro da mesa. Após o jantar me foi dada a palavra e me coloquei em pé para falar. Todos me olhavam fixamente. Falei de onde eu era e do trabalho que realizava nas férias para conseguir uma bolsa de estudos em dinheiro para poder continuar estudando, falei dos meus planos futuros e mostrei os prospecto dos livros que estava vendendo. Expliquei que aqueles que tivessem interesse em participar deveriam assinar a lista de pedidos ao final do mostruário e colocar seu endereço. Logo meu mostruário estava passando de mão em mão e quase todos os presentes assinaram o pedido. Vendi naquela noite o equivalente as vendas da semana. O Senhor me abençoou ricamente. 

Outra experiência que foi marcante, ocorreu numa tarde daquelas férias. Eu bati na porta de uma casa e uma senhora veio me atender. Me apresentei como estudante e fiz toda introdução como de costume e logo ela me convidou para entrar em sua casa. Assim que entrei na sala e sentei numa poltrona confortável eu lhe pedi um copo de água, pois estava fazendo muito calor. Aquela senhora me trouxe um suco gelado muito gostoso no lugar da água, e logo começou a demonstrar preocupação por eu estar tão longe de casa, ela me disse ainda que minha mãe devia estar preocupada e me tratou como um filho. Depois que mostrei o prospecto dos livros que estava vendendo, ela me disse que não ia comprar nada, mas que me daria uma ajuda em dinheiro. Foi lá dentro e voltou com uma quantia equivalente ao valor do livro "O Desejado de Todas as Nações". Insisti em lhe trazer um livro, mas ela recusou. Agradeci muito aquela mulher, ela parecia um anjo de Deus pra me animar e encorajar. No dia seguinte voltei até sua casa, bati na porta e ela abriu. Quando me viu ficou surpresa, eu lhe disse que tinha voltado para lhe dar um presente, ela ficou curiosa, então lhe entreguei o livro "O Desejado de Todas as Nações", ao que ela simplesmente sorriu e agradeceu. Orei ao Senhor para que ela tivesse um encontro real e verdadeiro com o Filho de Deus e se aproximasse ainda mais de Jesus.

Colportei naquelas férias nos meses de dezembro de 1983, janeiro e fevereiro de 1984. A cidade de Campo Grande, MS, tem um clima muito quente nessa época do ano, e devido ao calor e ao consumo exagerado de manga, uma fruta típica daquela região, fiquei com uma alergia ao redor da boca e nas orelhas. Mas Deus me abençoou e um médico que eu havia vendido alguns livros me deu uma consulta gratuita e me orientou sobre o que fazer para resolver o problema. Aquelas férias passaram muito rápido e logo chegou o seu final e o período de realizar as entregas das encomendas feitas. Como eu tinha vendido bem tinha muitas entregas para fazer, comprei uma mochila tipo do exercito com armação de ferro para entregar os livros, que ficavam bem pesados numa mochila cheia, pois só um deles já era bem grosso: "A Cura e Saúde Pelos Alimentos". Foi levando muito peso nas costas, debaixo de sol e chuva, que fiz as entregas dos pedidos, sempre falhava uma média de 10% dos pedidos, o que era normal devido a vários fatores. Mas naquelas férias eu consegui o estipêndio, ou seja, eu ganhei dinheiro suficiente para estudar num Internato Adventista por um semestre como aluno regular, ou seja, eu apenas dedicaria meu tempo aos estudos, lazer, esporte e atividades espirituais oferecidas pelo colégio. Após o acerto final na Associação, decidi que eu iria estudar no IAP (Instituto Adventista Paranaense) que fica no interior da cidade de Maringá, no Paraná. No início de março de 1984 fui de ônibus de Campo Grande para Maringá, e assim que cheguei no IAP me matriculei como aluno regular no segundo ano do Ensino Médio, no curso de Técnico em Saúde Pública, e paguei o semestre letivo à vista em dinheiro, que havia ganhado com o trabalho da colportagem nas férias. Foi uma experiência marcante pra mim, eu estava conquistando minha autonomia e realizando um sonho.

Estudei no IAP os meses de março e abril de 1984. Escrevi uma carta para minha mãe e para minha avó dizendo que eu estava no colégio e que não voltaria pra casa naquele ano. Em abril minha avó chegou no colégio trazendo algumas roupas novas, um terno novo e sapato novo. Eu sabia que tudo tinha sido comprado com muito sacrifício, mas fiquei super agradecido e feliz com a visita dela. ela passou um final de semana comigo. nunca vou esquecer. Ela estava feliz por mim e ao mesmo tempo triste por eu ter saído de casa tão novo. Lembro que quando me despedi dela e quando a vi partindo num final de tarde de domingo, fiquei olhando ela ir ir embora de ônibus e senti meu coração apertar no meu peito, chorei. Naquele mesmo instante decidi que ainda não era hora de deixar minha família, naquele mesmo instante decidi que eu voltaria para minha casa e continuaria meus estudos na minha cidade, e que eu só sairia de casa depois que terminasse o Ensino Médio e fosse fazer teologia no SALT/IAE, São Paulo, SP, pois essa era minha principal meta. Deste modo, naquela semana me despedi dos colegas e amigos que havia feito ali, fiz um acerto com o setor financeiro do colégio, paguei pelos dias estudados e recebi o restante do meu dinheiro de volta em espécie. No outro domingo quem estava deixando o colégio e voltando pra casa era eu.

Recordo que coloquei meu dinheiro embaixo do meu pé dentro da meia, com medo de perdê-lo ou ser assaltado. Afinal Jesus mesmo disse: "Sede simples como as pombas, mas prudentes como as serpentes". Eu precisaria daquele dinheiro no futuro para estudar Teologia. Após chegar na rodoviária de Lages, SC, peguei um táxi até minha casa. Lembro da surpresa de todos quando me viram. minha mãe e avó perguntaram se eu tinha vindo passear, ao que respondi: não, eu voltei pra ficar, só vou sair de casa quando tiver que ir pra São Paulo cursar Teologia. Elas ficaram muito felizes, e minha mãe me confidenciou que minha avó, que eu considerava minha segunda mãe, estava muito triste e meio deprimida com minha saída de casa. Concluí que foi bom eu ter voltado. Um fato interessante durante os meses que eu estive fora de casa, foi o fato de que eu não sofri nenhum enfrentamento com as forças malignas, mas ao chegar em minha casa, todo aquele confronto espiritual começou a acontecer nas madrugadas. Conclui que o problema poderia estar com o local ou alguém da família. Mais tarde descobri que minha mãe estava lendo o livro "O Evangelho Segundo o Espiritismo" de Allan Kardec, o qual eu queimei posteriormente.

Desta maneira lá estava eu novamente na cidade de Lages, SC. Procurei uma escola para continuar estudando e a única escola pública que consegui matrícula foi no Colégio Estadual Aristiliano Ramos, que na época ficava no calçadão no centro da cidade e que atualmente já foi demolido. Me matriculei no curso de Auxiliar de Farmácia, eu queria estudar na área da saúde no Ensino Médio, naquela época era ofertada uma educação profissionalizante no segundo e no terceiro ano. Era o ano de 1984 e logo chegaram as férias de julho, que naquela época duravam quase dois meses. Logicamente fui colportar mais uma vez. Desta vez fui para a cidade de Criciúma (Içara), SC. O dinheiro que ganhei coloquei na minha caderneta de poupança, pois meu objetivo era cursar teologia ao final do Ensino Médio. Durante o período em que fiz o Ensino Médio guardei todo o dinheiro que ganhei nas colportagens, de maneira que quando eu fui estudar em São Paulo eu já tinha dinheiro para pagar um ano do SALT/IAE só com os juros, sem precisar mexer no saldo. E Enquanto eu estuda lá, quase sempre ganhei o estipêndio, com exceção de uma única vez. Mas Deus sempre proveu o necessário. Resumindo, desde meu batismo até o final do Ensino Médio entre 1982 a 1986 e durante todo curso de teologia que fiz entre 1986 a 1989, eu colportei como colportor estudante todas as férias de final de ano e de julho em várias cidades, somando um total de 14 períodos de férias, tais como segue a seguir:

1 - Dezembro de 1982 a Janeiro e Fevereiro de 1983 - Lages, SC.
2 - Julho de 1983 - Não me recordo.
3 - Dezembro de 1983 a Janeiro e Fevereiro de 1984 - Campo Grande, MS.
4 - Julho de 1984 - Criciúma (Içara), SC.
5 - Dezembro de 1984 a Janeiro e Fevereiro de 1985 - Chapecó (Xaxim), SC.
6 - Julho de 1985 - Lages, SC.
7 - Dezembro de 1985 a Janeiro e Fevereiro de 1986 - Florianópolis, SC.
8 - Julho de 1986 - Brusque, SC.
9 - Dezembro de 1986 a Janeiro e Fevereiro de 1987 - Blumenau (Timbó), SC.
10 - Julho de 1987 - Santo Ângelo, RS.
11 - Dezembro de 1987 a Janeiro e Fevereiro de 1988 - São Miguel do Oeste, SC.
12 - Julho de 1988 - Florianópolis, SC.
13 - Dezembro de 1988 a Janeiro e Fevereiro de 1989 - Florianópolis, SC.
14 - Julho de 1989 - Erechim, RS.

Quando eu estava para começar o terceiro ano do Ensino Médio, eu estava colportando naquelas férias na cidade de Chapecó, SC, na equipe do Tércio Reginaldo Teixeira Marques, grande amigo até hoje, era o verão de 1984/1985. Eu havia me alistado no 1º Batalhão Ferroviário de Lages, pois estava com 18 anos de idade. Fui convocado para comparecer no Exército em plenas férias de janeiro, bem no meio do meu trabalho de colportagem. Após um dia dentro do batalhão fazendo testes e passando por avaliações juntamente com diversos jovens, fui encaminhado por um oficial para a última etapa do processo seletivo, uma entrevista com um tenente. Ele me perguntou se eu queria servir a pátria, eu lhe respondi que sim, mas que eu não poderia servir, porque estava trabalhando nas férias para juntar dinheiro para fazer a faculdade de teologia. Lhe expliquei que eu era Adventista do Sétimo Dia e que pretendia estudar para ser um pastor. Também lhe mostrei meu bloco de pedidos, as encomendas de livros que havia feito em Chapecó e que eu precisaria retornar para fazer a entrega. Ele apenas me ouviu atentamente. Eu estava apreensivo com a possibilidade de ficar engajado no batalhão, mas eu havia orado e colocado nas mãos de Deus, para que se fosse da vontade dEle eu pudesse ser dispensado e retornasse para a colportagem e pudesse concluir o Ensino Médio naquele ano de 1985. Um fato preocupante era o de que meu curso profissionalizante não abriria mais turmas, assim, se eu servisse o batalhão eu atrasaria meus estudos no Ensino Médio em três anos, pois teria que fazer o segundo ano novamente após ficar um ano servido o exército. Se isso ocorresse, meu sonho de ir para o SALT/IAE só seria possível em 1988. Após a entrevista com o tenente, ele me encaminho para a fila dos que iam cortar o cabelo para receber o uniforme e ficar engajados no batalhão. Eu apenas orava e esperava uma resposta do Senhor, eu tinha plena certeza que a vontade de Deus seria feita, independente da vontade ou da autoridade dos homens. Quando eu estava quase chegando para que cortassem meu cabelo, um sargento gritou o meu nome: Jorge Nazareno Neto Schemes! Levantei a mão e me identifiquei. Ao que ele me disse: "Você está liberado, passe na junta militar semana que vem para pegar a tua terceira!" (Carteira de Reservista de quem é dispensado do serviço militar). Eu sai do batalhão naquele dia dando graças a Deus e mais decidido ainda em colportar e me preparar para estudar teologia no SALT/IAE.

Um fato que ocorreu enquanto eu fazia o Ensino Médio em Lages, SC, no Colégio Estadual Aristiliano Ramos foi que todos os meus colegas de sala de aula fizeram um curso bíblico e no final foi feito uma cerimônia de entrega de certificados na igreja central de Lages, com o pastor Belmiro de Moraes. Deixei meu testemunho entre meus colegas, por palavras e ações, a ponte deles pedirem licença para mim quando queriam fumar, ou saiam da sala ou pediam para eu me retirar. Lembro do Rômulo, um jovem colega viciado em drogas que um dia veio conversar comigo e disse: "olha Jorge, eu admiro a tua fé, eu queria ter essa fé que você tem". Eu falei de Jesus para ele. Outro fato foi o testemunho que deixei entre os professores, que sabiam da minha fé e me respeitavam muito. No terceiro ano, dei de presente para a direção da escola um quadro da Santa Lei de Deus, o qual tinha uma imagem de Jesus segurando as duas tábuas da Lei. Escrevi uma dedicatória atrás e a direção da escola decidiu pendurar o quadro na secretaria da escola, de forma que ficou visível a todos que chegavam ali.

Minha dedicação na IASD ia além das atividades promovidas pela igreja como cultos, escola sabatina, programas JA (Jovens Adventistas), cursos, vigílias e atividades missionárias como distribuição de folhetos. Também durante a semana eu fazia trabalho missionário algumas noites com o irmão Sebastião Souza, e sempre no sábado a tarde a à noite também. Nós fazíamos uma dupla missionária bem interessante. Eu sempre lembrava da relação entre o apóstolo Paulo e Timóteo quando saia para dar estudos bíblicos junto com o irmão Sebastião, a quem sempre considerei como um pai na fé. Lembro de um dos interessados em particular, seu nome: Jair Tadeu Machado. Jair era um jovem sargento do exército do 1º Batalhão Ferroviário de Lages, SC. Também era um líder entre a juventude da Igreja Católica Apostólica Romana da qual fazia parte. Quando conversamos pelas primeiras vezes com Jair, logo após nossos encontros, eu e o irmão Sebastião conversávamos e tínhamos dúvidas sobre se ele estaria disposto a deixar tudo para abraçar a verdade presente do Evangelho Eterno. O resultado desse evangelismo particular, foi a conversão do Jair e seu batismo na IASD central de Lages, SC, e como consequência não demorou muito para ele sofrer perseguições dentro do exército. Jair foi um jovem leal e fiel ao seu chamado, mesmo sendo preso no batalhão por se recusar a trabalhar no sábado, ele continuou fiel. Quantas vezes ficamos horas conversando e oramos juntos dentro daquele Fiat 147 que ele tinha?! Nasceu assim uma grande e sincera amizade. A situação ficou insustentável para o sargento Jair, o qual optou por pedir sua baixa do exército. Resumindo a história, Jair hoje é pastor ordenado da IASD em Santa Catarina. Tive o privilégio de colportar com ele algumas vezes, especialmente na cidade de Timbó, SC. Quando eu estava no segundo ano de Teologia, Jair chegou no SALT/IAE para começar a faculdade e se formou um ano depois de mim.

Quando terminei o Ensino Médio no ano de 1985, fui colportar em Florianópolis, SC. Externei para minha mãe e avó que iria fazer o vestibular para teologia em São Paulo, SP, e elas me disseram o que eu já sabia: "Filho, não temos condições financeiras para pagar a faculdade e o colégio interno para você!" Minha resposta para elas sempre foi a mesma: "Deus proverá!" Antes de sair para viajar, nos ajoelhamos na pequena sala da casa de madeira da minha avó e fizemos uma oração pedindo a benção de Deus sobre meu trabalho como colportor estudante. Aquelas férias de final de ano (Dezembro de 1985 a Janeiro e Fevereiro de 1986) foram muito especias, pois Deus me abençoou muito, não só na colportagem, mas nos dois vestibulares que fiz no IAE em São Paulo, SP, um para pedagogia e o outro para teologia, nos quais eu passei com boa colocação. Após ter sido abençoado no vestibular, conclui meu trabalho em Florianópolis, fiz o acerto final na Associação, voltei para Lages com o estipêndio do semestre, e quando comuniquei minha família que eu havia passado no vestibular e iria estudar Teologia minhas duas mães ficaram muito felizes. Era o início de março de 1986, e as aulas já iriam iniciar na faculdade. De sorte que não fiquei muitos dias em casa, logo fiz minha mala com poucas roupas e roupas de cama e viajei para São Paulo, SP, para iniciar a tão sonhada faculdade de teologia da Igreja Adventista do Sétimo Dia no SALT/IAE atual UNASP. Eu havia feito a minha pate desde cedo, havia trabalhado honestamente e fielmente na obra da colportagem estudantil por várias férias, havia economizado e confiado que Deus proveria, e assim ocorreu.

Quando cheguei em São Paulo, SP, tudo era novo para mim. Andar de metrô foi o que mais me impressionou na cidade. Assim que cheguei no colégio já fui na tesouraria pagar o semestre à vista, sempre paguei cada semestre à vista como aluno regular. Graças a Deus nunca fiquei devendo nada para o colégio durante os quatro anos que estudei lá. O início do curso de teologia foi marcante. Tive a oportunidade de estudar com ótimos colegas, os quais mantenho contato até hoje por meio de um grupo que criamos da nossa turma no WhatsApp, a turma de 1989, que foi o ano da nossa formatura. Logo percebi que a faculdade de teologia não seria nada fácil. Os professores eram muito exigentes. Havia monografias a fazer por disciplina, além disso relatórios semanais de leituras exigidas em páginas. Muita leitura. Além disso os trabalhos e provas que eram sem consulta, no estilo tradicional. Mas eu estava focado e super entusiasmado, eu queria aprender tudo que eu pudesse, e no contra turno das aulas que eram dadas no período da manhã, eu mergulhava em estudos e leituras na imensa biblioteca do colégio que atendia as diferentes faculdades oferecidas. Lembro que logo numa das noites que cheguei no IAE eu fiz uma oração de agradecimento a Deus e chorei de emoção, por ter o privilégio de estudar ali. Era o início do ano de 1986 e eu estava com 19 anos de idade.

A rotina no colégio era a mesma quase todos os dias. Culto matinal na capela, "café" (cevada) da manhã no refeitório, aulas pela manhã, almoço vegetariano no refeitório, tardes de estudo na biblioteca com pesquisa em muitos livros, lembrando que na época não tinha Internet nem celular, jantar vegetariano no refeitório, culto noturno na capela, horário de dormir no dormitório sob a supervisão do preceptor, professor e pastor Domício. A rotina era quebrada na sexta feira a tarde, quando os alunos preparavam as roupas e arrumavam o quarto do dormitório para o culto de pôr de sol na igreja do colégio na sexta feia a noite. Eu estava feliz e agradecido a Deus por tudo que estava ocorrendo. Um detalhe importante foi o fato de que desde o primeiro dia que cheguei no IAE, até o mês de maio do ano de 1989, e depois até o mês de setembro do ano de 2015, as forças do mal nunca mais voltaram a me atormentar, eu sentia a proteção e a paz de Deus em minha vida, eu estava liberto pelo sangue de Jesus meu Salvador e Senhor. Depois explico o porquê citei essas duas datas, maio de 1989 e setembro de 2015.